A boa notícia vem do Paraná: Requião, o polêmico governador, implantou o Programa Ouro Verde, que prevê investimentos de R$ 800 milhões para reflorestar áreas degradadas. O objetivo é incentivar pequenos proprietários (até 10 hectares) a formarem a “poupança verde”, reflorestando e cuidando da floresta.
A idéia deveria ser adotada em todos os estados brasileiros. Primeiro, porque temos áreas degradas em todo o país. Só em Santa Catarina são dois milhões de hectares. Segundo, a idéia de poupança verde é sensacional. Associar o pequeno reflorestamento com a renda, agregando valor na atividade do campo, é uma excelente política. Terceiro, porque a biomassa que se forma nessas áreas reflorestadas, capta CO² durante a formação da floresta, contribuindo com o meio ambiente.
BONS VENTOS sopram na Espanha. No último dia 14 de janeiro, a Red Eléctrica de Espanã, órgão responsável pelo acompanhamento da produção e distribuição de energia elétrica no país, informou um novo recorde de geração eólica: 11.693MW registrados a 01h33min horas daquele dia. A impressionante produção de energia eólica foi capaz de atender 43% da demanda do país naquele momento. Um novo recorde mundial. Em nenhum outro país a geração de energia eólica teve uma participação tão significativa, no atendimento da demanda total.
sexta-feira, janeiro 29, 2010
quinta-feira, janeiro 28, 2010
Celesc, a ponta do iceberg (parte II)
No jornal Valor de ontem, uma grande reportagem sobre a Celesc. Novamente o que é destacado, é a má gestão da empresa. Dessa vez os acionistas minoritários, entre eles o Fundo de Pensão da Previ, estão recorrendo a Comissão de Valores Mobiliários- CVM, para impedir um acerto de contas entre o governo do Estado e a Celec. Segundo o que os demandantes alegam, esse acerto é lesivo aos interesses da empresa e não foi apreciado pelo conselho de administração.
O rombo é grande. Envolve um empréstimo feito pela Celesc ao governo do Estado. O que causa estranheza é que pelo acerto a Celesc de credora passa a devedora. Não é a primeira vez que negócios obscuros rondam a maior empresa pública catarinense durante o atual governo. No final de 2005, depois de uma audiência pública na Assembléia Legislativa, conseguiu-se evitar que a Celesc desembolsa-se milhões em função de um trabalho apresentado por uma empresa de consultoria contratada pela própria Celesc. Na época, ficou visível que outros interesses rondavam esse obscuro estudo.
Ao denunciar essa situação, como deputado, ganhei inimigos. E não foram poucos. Paguei um preço alto por não me omitir. Tempos mais tarde, cobrei de um líder sindical as razões dessa convivência excessivamente harmoniosa com a diretoria da Celesc. A resposta que me foi dada, fala por si: “Fizemos um pacto. Dividimos o poder. O PMDB ficou com a Celesc e nós da Intercel com a Fundação Celos”.
O rombo é grande. Envolve um empréstimo feito pela Celesc ao governo do Estado. O que causa estranheza é que pelo acerto a Celesc de credora passa a devedora. Não é a primeira vez que negócios obscuros rondam a maior empresa pública catarinense durante o atual governo. No final de 2005, depois de uma audiência pública na Assembléia Legislativa, conseguiu-se evitar que a Celesc desembolsa-se milhões em função de um trabalho apresentado por uma empresa de consultoria contratada pela própria Celesc. Na época, ficou visível que outros interesses rondavam esse obscuro estudo.
Ao denunciar essa situação, como deputado, ganhei inimigos. E não foram poucos. Paguei um preço alto por não me omitir. Tempos mais tarde, cobrei de um líder sindical as razões dessa convivência excessivamente harmoniosa com a diretoria da Celesc. A resposta que me foi dada, fala por si: “Fizemos um pacto. Dividimos o poder. O PMDB ficou com a Celesc e nós da Intercel com a Fundação Celos”.
quarta-feira, janeiro 27, 2010
Águas de março
Talvez vocês não saibam, mas Tom Jobim nasceu no mesmo dia que São Paulo, 25 de janeiro. Se estivesse vivo estaria comemorando 83 anos. Ligado como era já tinha mudado o mês do nome de sua música “Águas de março”. Em homenagem a São Paulo seria “águas de janeiro”. A letra, até que podia continuar a mesma:
“É o fundo do poço, é o fim do caminho”
“No rosto o desgosto....”
“é o carro enguiçado, é a lama, é a lama”
Ontem, para que o paulistano não pensasse que a chuva do dia anterior era para apagar “as 456velinhas” do aniversariante, a chuva voltou a castigar e infernizar a cidade. Foram registrados 45 pontos de alagamento e 170 km de congestionamentos. Segundo a Agência Estado, foi maior engarrafamento do ano. Sempre é bom lembrar que o ano só começou.
Para quem convive com esse estresse diário, busca nas autoridades, prefeito e o governador, explicações convincentes e iniciativas concretas. No dia do aniversário quem acabou faturando foi o presidente LULA. Ao ser homenageado, ao lado de Serra, pelo prefeito Kassab, LULA não perdeu tempo. De improviso anunciou um novo PAC para combater as enchentes em São Paulo. Perplexos, Kassab e Serra, não sabiam onde se enfiar. LULA, que de bobo não tem nada deu, literalmente, “nó em pingo d’água”.
“É o fundo do poço, é o fim do caminho”
“No rosto o desgosto....”
“é o carro enguiçado, é a lama, é a lama”
Ontem, para que o paulistano não pensasse que a chuva do dia anterior era para apagar “as 456velinhas” do aniversariante, a chuva voltou a castigar e infernizar a cidade. Foram registrados 45 pontos de alagamento e 170 km de congestionamentos. Segundo a Agência Estado, foi maior engarrafamento do ano. Sempre é bom lembrar que o ano só começou.
Para quem convive com esse estresse diário, busca nas autoridades, prefeito e o governador, explicações convincentes e iniciativas concretas. No dia do aniversário quem acabou faturando foi o presidente LULA. Ao ser homenageado, ao lado de Serra, pelo prefeito Kassab, LULA não perdeu tempo. De improviso anunciou um novo PAC para combater as enchentes em São Paulo. Perplexos, Kassab e Serra, não sabiam onde se enfiar. LULA, que de bobo não tem nada deu, literalmente, “nó em pingo d’água”.
terça-feira, janeiro 26, 2010
Celesc, a ponta do iceberg.
A vida me ensinou que para começar de novo, tem que virar a página. Foi o que fiz depois de encerrar meu mandato. Invertendo a lógica que permeia a política, de ficar gravitando em torno do poder e dos partidos, optei por construir algo novo, futurista, onde eu pudesse dar minha contribuição. Em fevereiro de 2007 criamos o Instituto IDEAL. Um longo e penoso processo que começa dar certo. Estamos levando a discussão do papel e da importância das energias renováveis a todos os países da América Latina. Cada dia mais motivado, acredito no bem que estamos fazendo, introduzindo e promovendo nas universidades, junto aos jovens, a necessidade de se pensar na matriz energética do futuro.
Essa introdução é para justificar, em parte, as razões pelas quais me afastei da vida partidária. As cobranças existem dos dois lados, mas vou administrando. Espero que dentro do partido haja também essa compreensão. Até porque discutir mudanças climáticas, energia limpa, desenvolvimento sustentável, é fazer política – política do bem. Essas questões vão estar presentes no processo eleitoral que se avizinha e nos próximos governos que virão. No caso de Santa Catarina, a disputa ao governo vai colocar a Celesc na vitrine. Pelo seu baixo desempenho, os catarinenses vão querer saber do seu destino.
Por conhecer a empresa de longa data, vejo com preocupação seu futuro. Duas notícias recentes confirmam a gravidade dessa situação. A Cemig, interessada em comprar a Celesc, foi contratada para fazer um diagnóstico empresarial. A Eletrobrás, sócia da Celesc, está liberando 220 milhões de reais para cobrir o caixa da empresa. Acionistas privados e o Fundo de Pensão da Previ, cobram publicamente resultados e uma gestão mais profissional.
Durante o governo Luiz Henrique, pintaram e bordaram com a Celesc. Em fevereiro de 2005, como deputado federal encaminhei aos deputados estaduais, uma solicitação de audiência pública para tratar do futuro da Celesc. Na correspondência salientava: “que a empresa precisava de uma auditoria externa antes que aconteça o pior”. Nada fizeram. Passaram-se cinco anos, e o pior está batendo na porta.
Essa introdução é para justificar, em parte, as razões pelas quais me afastei da vida partidária. As cobranças existem dos dois lados, mas vou administrando. Espero que dentro do partido haja também essa compreensão. Até porque discutir mudanças climáticas, energia limpa, desenvolvimento sustentável, é fazer política – política do bem. Essas questões vão estar presentes no processo eleitoral que se avizinha e nos próximos governos que virão. No caso de Santa Catarina, a disputa ao governo vai colocar a Celesc na vitrine. Pelo seu baixo desempenho, os catarinenses vão querer saber do seu destino.
Por conhecer a empresa de longa data, vejo com preocupação seu futuro. Duas notícias recentes confirmam a gravidade dessa situação. A Cemig, interessada em comprar a Celesc, foi contratada para fazer um diagnóstico empresarial. A Eletrobrás, sócia da Celesc, está liberando 220 milhões de reais para cobrir o caixa da empresa. Acionistas privados e o Fundo de Pensão da Previ, cobram publicamente resultados e uma gestão mais profissional.
Durante o governo Luiz Henrique, pintaram e bordaram com a Celesc. Em fevereiro de 2005, como deputado federal encaminhei aos deputados estaduais, uma solicitação de audiência pública para tratar do futuro da Celesc. Na correspondência salientava: “que a empresa precisava de uma auditoria externa antes que aconteça o pior”. Nada fizeram. Passaram-se cinco anos, e o pior está batendo na porta.
segunda-feira, janeiro 25, 2010
Poucas e boas (do final de semana)
JUSTIÇA X POLÍTICOS – estou convencido que o fim do foro privilegiado ajudaria a acabar com a impunidade. Veja o que está ocorrendo em Santa Catarina. O vice-governador Leonel Pavan foi denunciado pelo Ministério Público Estadual à Justiça. A denúncia é por corrupção passiva, advocacia administrativa e violação de sigilo funcional. A imprensa local, cumprindo com o seu papel vêm acompanhando o caso e divulgado tudo nos jornais. Agora, pelo que eu li, a dúvida é se Pavan vai ser julgado pelo Tribunal de Justiça ou pelo STJ. O argumento é de que como Pavan ainda não assumiu o governo, o foro é privilegiado e não especial, por não ser governador. Se Pavan fosse um simples cidadão nada disso estaria acontecendo.
Já em Brasília, a Justiça está caindo no agrado do povo. O juiz Vinícius Santos Silva, percebendo a manobra dos deputados pró Arruda para acabarem com a CPI do chamado “mensalão do DEM”, em despacho, assegurou a continuidade dos trabalhos da CPI. Foi ele também que afastou os oito deputados acusados de receber propina dentro do mesmo esquema do “mensalão”.
ACREDITE SE QUISER, foi capa da Folha de São Paulo um peixe de quase dois quilos encontrado dentro de um dos principais túneis da capital paulista. O túnel Tribunal de Justiça é um dos principais acessos à Marginal Pinheiros. Em razão das chuvas ficou 38 horas interditado. Não se sabe se o peixe sobreviveu.
INQUILINO SE DESPEDE da Embaixada do Brasil em Honduras. Pelo menos é o que se espera que aconteça essa semana, depois da Corte Suprema ter processado a cúpula militar por abuso de poder ao ter retirado do país o presidente Manuel Zelaya. Zelaya, hóspede da embaixada do Brasil em Honduras há quatro meses, pretende fixar residência no México.
E O OBAMA, hem...parece que se esqueceu da sua promessa de campanha de fechar a prisão de Guantánamo. Agora a novidade é que vai manter 50 presos sem julgamento indefinidamente em Guantánamo. Segundo um funcionário da Casa Branca ao Washington Post: “toda a política acaba encontrando a realidade, e é doloroso”. Doloroso é ficar preso sem ser julgado!
Já em Brasília, a Justiça está caindo no agrado do povo. O juiz Vinícius Santos Silva, percebendo a manobra dos deputados pró Arruda para acabarem com a CPI do chamado “mensalão do DEM”, em despacho, assegurou a continuidade dos trabalhos da CPI. Foi ele também que afastou os oito deputados acusados de receber propina dentro do mesmo esquema do “mensalão”.
ACREDITE SE QUISER, foi capa da Folha de São Paulo um peixe de quase dois quilos encontrado dentro de um dos principais túneis da capital paulista. O túnel Tribunal de Justiça é um dos principais acessos à Marginal Pinheiros. Em razão das chuvas ficou 38 horas interditado. Não se sabe se o peixe sobreviveu.
INQUILINO SE DESPEDE da Embaixada do Brasil em Honduras. Pelo menos é o que se espera que aconteça essa semana, depois da Corte Suprema ter processado a cúpula militar por abuso de poder ao ter retirado do país o presidente Manuel Zelaya. Zelaya, hóspede da embaixada do Brasil em Honduras há quatro meses, pretende fixar residência no México.
E O OBAMA, hem...parece que se esqueceu da sua promessa de campanha de fechar a prisão de Guantánamo. Agora a novidade é que vai manter 50 presos sem julgamento indefinidamente em Guantánamo. Segundo um funcionário da Casa Branca ao Washington Post: “toda a política acaba encontrando a realidade, e é doloroso”. Doloroso é ficar preso sem ser julgado!
sexta-feira, janeiro 22, 2010
São Paulo: a cidade parada.
Ontem falei sobre o prefeito Gilberto Kassab e as mortes em São Paulo. A cidade que chorou suas mortes, hoje está isolada com o transbordamento de seus rios e córregos. Para o prefeito, a desculpa de sempre: a culpa é da chuva e da ocupação desordenada.
O engarrafamento chegou a 120 km. Túneis, como o do Tribunal de Justiça e o vizinho Ayrton Senna, ficaram debaixo d’água. O tempo para percorrer os 1,7 km foi de duas horas. O cartunista Maurício de Souza, preso com seu filho no carro tomado pela água, assim descreveu sua angústia, até ser resgatado: “fiquei entre o risco de doença ou morrer afogado”. Entrevistado, Maurício falou o que todos de bom senso estão falando: “a culpa não é só da natureza. Temos que conscientizar os governantes de que o Plano Diretor da cidade, o lado urbano, é que está em falta. É uma tragédia anunciada”.
O que me impressiona é justamente como que o paulistano, considerado exigente, profissional, dinâmico, convive com isso. Todos sabem que se chover, ficará preso em imensos engarrafamentos. Aceitar, como “tragédia anunciada”, os constantes alagamentos, incorporando esse estresse à sua vida, é um desatino. Não sei como os paulistanos agüentam essa situação. Está na hora de computar o custo do transtorno provocado pelas enchentes. Talvez, aparecendo os cifrões, se encontre as soluções.
O engarrafamento chegou a 120 km. Túneis, como o do Tribunal de Justiça e o vizinho Ayrton Senna, ficaram debaixo d’água. O tempo para percorrer os 1,7 km foi de duas horas. O cartunista Maurício de Souza, preso com seu filho no carro tomado pela água, assim descreveu sua angústia, até ser resgatado: “fiquei entre o risco de doença ou morrer afogado”. Entrevistado, Maurício falou o que todos de bom senso estão falando: “a culpa não é só da natureza. Temos que conscientizar os governantes de que o Plano Diretor da cidade, o lado urbano, é que está em falta. É uma tragédia anunciada”.
O que me impressiona é justamente como que o paulistano, considerado exigente, profissional, dinâmico, convive com isso. Todos sabem que se chover, ficará preso em imensos engarrafamentos. Aceitar, como “tragédia anunciada”, os constantes alagamentos, incorporando esse estresse à sua vida, é um desatino. Não sei como os paulistanos agüentam essa situação. Está na hora de computar o custo do transtorno provocado pelas enchentes. Talvez, aparecendo os cifrões, se encontre as soluções.
quinta-feira, janeiro 21, 2010
O Haiti é aqui.
“Pense no Haiti. Reze pelo Haiti”
“O Haiti é aqui”.
Assim começa uma das músicas mais cantadas da minha época. Seus autores, Caetano Veloso e Gilberto Gil, sabiam muito bem que o Brasil não era o Haiti. Como artistas, através da música, procuravam chamar a atenção das desigualdades sociais do nosso país. E deu certo. Até hoje se usa a expressão. Tanto assim, que tão logo soube que na madrugada passada, em função das chuvas, oito pessoas morreram em São Paulo, me veio à lembrança a letra da música de Caetano e Gil, “O Haiti é aqui”.
Terremoto é um fenômeno natural imprevisível. Num país pobre, o resultado é o que, estarrecidos, vivenciamos com o Haiti. Já a chuva não. O que vem acontecendo na maior e mais rica cidade da América Latina, São Paulo, é inadmissível! Uma vergonha: bairros alagados a mais de um mês, ruas e casas inundadas, carros carregados pela água. E, agora, mortes!
No meio desse caos social, ambiental e urbano, o que mais me indigna são as declarações do responsável pela cidade, o prefeito Gilberto Kassab. Segundo ele: “as inundações são fruto da ausência de planejamento no crescimento da cidade, que não levou em consideração suas características naturais, como muitos córregos e rios”. O prefeito foi secretário do município e está no seu segundo mandato. Poupe-nos prefeito. Empreendimentos públicos como os apartamentos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo e o Centro Educacional Unificado (CEU), construídos no Jardim Pantanal, foram tomados pela água. Aliás, senhor prefeito, um loteamento chamado de “Jardim Pantanal”, que se encontra alagado a mais de um mês, deveria fazer parte da lista de suas preocupações com locais “cujas características naturais, como muitos córregos e rios” são impróprios para a ocupação urbana.
“O Haiti é aqui”.
Assim começa uma das músicas mais cantadas da minha época. Seus autores, Caetano Veloso e Gilberto Gil, sabiam muito bem que o Brasil não era o Haiti. Como artistas, através da música, procuravam chamar a atenção das desigualdades sociais do nosso país. E deu certo. Até hoje se usa a expressão. Tanto assim, que tão logo soube que na madrugada passada, em função das chuvas, oito pessoas morreram em São Paulo, me veio à lembrança a letra da música de Caetano e Gil, “O Haiti é aqui”.
Terremoto é um fenômeno natural imprevisível. Num país pobre, o resultado é o que, estarrecidos, vivenciamos com o Haiti. Já a chuva não. O que vem acontecendo na maior e mais rica cidade da América Latina, São Paulo, é inadmissível! Uma vergonha: bairros alagados a mais de um mês, ruas e casas inundadas, carros carregados pela água. E, agora, mortes!
No meio desse caos social, ambiental e urbano, o que mais me indigna são as declarações do responsável pela cidade, o prefeito Gilberto Kassab. Segundo ele: “as inundações são fruto da ausência de planejamento no crescimento da cidade, que não levou em consideração suas características naturais, como muitos córregos e rios”. O prefeito foi secretário do município e está no seu segundo mandato. Poupe-nos prefeito. Empreendimentos públicos como os apartamentos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo e o Centro Educacional Unificado (CEU), construídos no Jardim Pantanal, foram tomados pela água. Aliás, senhor prefeito, um loteamento chamado de “Jardim Pantanal”, que se encontra alagado a mais de um mês, deveria fazer parte da lista de suas preocupações com locais “cujas características naturais, como muitos córregos e rios” são impróprios para a ocupação urbana.
quarta-feira, janeiro 20, 2010
Negócios da China.
Todos nós já ouvimos falar em “negócios da China”. É uma expressão bem popular e muito antiga. Minha vó Esther gostava de usar esse termo. Significa fazer um bom negócio. Bons negócios sempre tiveram presentes na China. Há duas semanas, uma comitiva de chineses esteve visitando a Eletrosul. Depois do bem sucedido leilão das eólicas, nada mais natural do que a visita de um dos maiores fabricantes e investidores de parques eólicos no mundo.
A empresa que veio a Florianópolis é a segunda maior da China na área de energia. Tem instalado 90 mil megawatts. Quase tanto quanto o Brasil. Fabricam turbinas e operam usinas. Dentro do planejamento do país, a energia eólica é uma forma da China responder as críticas que recebe por ter uma matriz energética muito poluidora. Lá, 93% da energia produzida é considerada suja: 70% vêm do carvão e 23% do petróleo. Não há pulmão que agüente.
A capacidade instalada de energia eólica no país alcançou 20 gigawatts (20 bilhões de watts) no final de 2009. Dois dos maiores parques eólicos do mundo estão sendo construídos na China. Um deles, instalado no deserto de Gobi, de 12 mil MW, impressiona pelo seu tamanho. Os chineses que já conseguiram ganhar escala, avançam agora na tecnologia e na redução de custos. Na semana passada, o governo chinês anunciou o fim da reserva de mercado para produção de energia eólica. A exigência que havia, de que 70% das peças utilizadas para a montagem dos equipamentos usados na produção de energia elétrica através dos ventos fossem fabricadas lá, caiu por terra.
A decisão tomada pela poderosa Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento, tem tudo a ver com os “negócios da China”. A mudança ajudará o desenvolvimento da indústria eólica chinesa, agregando tecnologia de ponta desenvolvida por outros países. Com um grande mercado interno, que dá sustentação a sua indústria, a China, ao incorporar novas tecnologias, garante também uma forte participação no mercado externo. Por isso que já comentei: os chineses estão chegando.
A empresa que veio a Florianópolis é a segunda maior da China na área de energia. Tem instalado 90 mil megawatts. Quase tanto quanto o Brasil. Fabricam turbinas e operam usinas. Dentro do planejamento do país, a energia eólica é uma forma da China responder as críticas que recebe por ter uma matriz energética muito poluidora. Lá, 93% da energia produzida é considerada suja: 70% vêm do carvão e 23% do petróleo. Não há pulmão que agüente.
A capacidade instalada de energia eólica no país alcançou 20 gigawatts (20 bilhões de watts) no final de 2009. Dois dos maiores parques eólicos do mundo estão sendo construídos na China. Um deles, instalado no deserto de Gobi, de 12 mil MW, impressiona pelo seu tamanho. Os chineses que já conseguiram ganhar escala, avançam agora na tecnologia e na redução de custos. Na semana passada, o governo chinês anunciou o fim da reserva de mercado para produção de energia eólica. A exigência que havia, de que 70% das peças utilizadas para a montagem dos equipamentos usados na produção de energia elétrica através dos ventos fossem fabricadas lá, caiu por terra.
A decisão tomada pela poderosa Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento, tem tudo a ver com os “negócios da China”. A mudança ajudará o desenvolvimento da indústria eólica chinesa, agregando tecnologia de ponta desenvolvida por outros países. Com um grande mercado interno, que dá sustentação a sua indústria, a China, ao incorporar novas tecnologias, garante também uma forte participação no mercado externo. Por isso que já comentei: os chineses estão chegando.
terça-feira, janeiro 19, 2010
Pai coruja
Desde quando cheguei a Florianópolis, há 32 anos, venho participando ativamente da vida comunitária, sindical, política e acadêmica da cidade. Lembro-me de quando fui morar no Córrego Grande, minha filha Andréia tinha um ano. A principal rua do bairro, a João Pio Duarte, era de terra batida. O leite era vendido de porta em porta. Junto com o Thielen, Álvaro Sardinha, Corradine, Elias e Raul criamos o primeiro transporte solidário da cidade. Bons tempos. Começamos com um Opala, depois veio a “mimosa”, uma Kombi bem famosa, que nos levava para a Eletrosul. O bairro cresceu, a rua foi asfaltada e a idéia do transporte solidário morreu. E o trânsito ......
Entrei na política em 1994, concorrendo a deputado estadual. Larguei em 2007, depois de dois mandatos como vereador e um como deputado federal. Em 2007, dou outro rumo à minha vida. Busco apoio na academia para um projeto futurista: a criação de um instituto voltado para o desenvolvimento das energias renováveis na América Latina. Nasce o Instituto IDEAL. Durante esse período, meus filhos Andréia e Eduardo crescem quase que sem eu perceber. Ela, com 20 anos, se forma em Jornalismo. Ele começa na engenharia mecânica, mas acaba se formando em Economia. Sempre mantiveram distância das atividades políticas do pai. Longe da mídia, das campanhas e dos gabinetes, buscaram seus caminhos. Ela hoje trabalha com moda. Ele está concluindo seu mestrado em Lisboa, olhando onde fazer seu doutorado.
Confesso que tenho a maior admiração por eles. Agora mesmo comprei uma revista de moda que trás uma entrevista com a Andréia, em português e em inglês. Fala de como ela e o seu sócio, Luiz Wachelke, dois jovens catarinenses, criaram a Vish. Em apenas três anos a marca já dá sinais para o mercado internacional, que veio para ficar. A proposta é inovadora. Busca, na comunicação com o público através dos instrumentos que a internet oferece (sites, blogs, twitter, facebook e o que mais aparecer), conhecer melhor seus gostos e preferências.
Se você quiser ter acesso à entrevista, acesse: www.revistacatarina.com.br Se quiser conhecer a Vish, acesse: www.vishland.com.br
Entrei na política em 1994, concorrendo a deputado estadual. Larguei em 2007, depois de dois mandatos como vereador e um como deputado federal. Em 2007, dou outro rumo à minha vida. Busco apoio na academia para um projeto futurista: a criação de um instituto voltado para o desenvolvimento das energias renováveis na América Latina. Nasce o Instituto IDEAL. Durante esse período, meus filhos Andréia e Eduardo crescem quase que sem eu perceber. Ela, com 20 anos, se forma em Jornalismo. Ele começa na engenharia mecânica, mas acaba se formando em Economia. Sempre mantiveram distância das atividades políticas do pai. Longe da mídia, das campanhas e dos gabinetes, buscaram seus caminhos. Ela hoje trabalha com moda. Ele está concluindo seu mestrado em Lisboa, olhando onde fazer seu doutorado.
Confesso que tenho a maior admiração por eles. Agora mesmo comprei uma revista de moda que trás uma entrevista com a Andréia, em português e em inglês. Fala de como ela e o seu sócio, Luiz Wachelke, dois jovens catarinenses, criaram a Vish. Em apenas três anos a marca já dá sinais para o mercado internacional, que veio para ficar. A proposta é inovadora. Busca, na comunicação com o público através dos instrumentos que a internet oferece (sites, blogs, twitter, facebook e o que mais aparecer), conhecer melhor seus gostos e preferências.
Se você quiser ter acesso à entrevista, acesse: www.revistacatarina.com.br Se quiser conhecer a Vish, acesse: www.vishland.com.br
segunda-feira, janeiro 18, 2010
Uma boa leitura
Ler, na segunda-feira, Luiz Felipe Pondé, faz bem. Na semana passada escreveu sobre turismo. Para quem vive em Florianópolis, um prato cheio. Começa assim: “turismo tem que ser barato e, como tudo que é barato se torna brega”. Relembra, de quando esteve na Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, em 1992. Descreve, com rara beleza, a visita que fez à catedral, quando: “numa tarde de outono, os sinos tocavam e pombas voavam no pátio. O silêncio na catedral era uma prova da presença de Deus ou Alá. Meus olhos, diante daquela beleza moura, eram como pulmões sem ar em meio a tanto ar puro. Voltei lá depois. Não se ouve mais os sinos. As pombas se suicidaram diante da horda de invasores de férias. O silêncio fugiu. A beleza se recolheu. Só se ouve o ruído da horda e de suas câmaras filmadoras”.
Nessa segunda, na Folha de São Paulo, você pode acompanhar as inquietudes literárias de Pondé, na viagem que faz sobre a vida futura. Chama a atenção para um fenômeno em curso, aonde as pessoas vão perdendo a alegria, asfixiadas pela burocracia. “Lembre que vivemos em shoppings nos entupindo de alegria, pensando em alimento saudável e calculando o colesterol, correndo em esteiras em academias, pesquisando parceiros que possam trazer saúde para os filhos que pretendemos ter, tomando remédios que nos deixem felizes como apenas os cegos conseguem ser, temendo o tempo todo o que esse monstro – o poder informatizado do povo -, decidirá sobre nossa vida, enfim, escravos ridículos da ciência e sua mania de sucesso fisiológico e de qualidade de vida”. Enfim, segundo ele, nunca deveríamos achar que estamos num porto seguro. A alma morreria. E, conclui: num vaso limpo, sem sujeiras, nada brota.
Nessa segunda, na Folha de São Paulo, você pode acompanhar as inquietudes literárias de Pondé, na viagem que faz sobre a vida futura. Chama a atenção para um fenômeno em curso, aonde as pessoas vão perdendo a alegria, asfixiadas pela burocracia. “Lembre que vivemos em shoppings nos entupindo de alegria, pensando em alimento saudável e calculando o colesterol, correndo em esteiras em academias, pesquisando parceiros que possam trazer saúde para os filhos que pretendemos ter, tomando remédios que nos deixem felizes como apenas os cegos conseguem ser, temendo o tempo todo o que esse monstro – o poder informatizado do povo -, decidirá sobre nossa vida, enfim, escravos ridículos da ciência e sua mania de sucesso fisiológico e de qualidade de vida”. Enfim, segundo ele, nunca deveríamos achar que estamos num porto seguro. A alma morreria. E, conclui: num vaso limpo, sem sujeiras, nada brota.
domingo, janeiro 17, 2010
Haiti: desespero, dor e reconstrução.
Não gostaria de continuar falando sobre o Haiti. No entanto, as imagens que nos chegam, de desespero e dor, nos impedem de esquecer essa tragédia. Passada a fase mais sofrida, a de enterrar os mortos, atender os sobreviventes, alimentar o povo, manter a ordem, evitar os saques e dar as condições mínimas para que o Estado se restabeleça, começa outra etapa: a de recuperar um país arrasado. É sobre ela o meu comentário de hoje.
O governo brasileiro já anunciou que vai continuar no Haiti por mais cinco anos e que quer participar da etapa de reconstrução. Outros países também se comprometeram a ser solidários com o Haiti. Infelizmente, sabemos como funcionam, na prática, essas ajudas internacionais. Passada a fase de grande exposição midiática, quando as imagens tocam profundamente às pessoas, e a sociedade sensibilizada cobra uma participação efetiva de seus governos, a tendência é dos governantes se afastarem lenta e gradualmente dos compromissos que assumiram.
Espero que isso não ocorra com o Haiti. Seria mais uma grande tragédia. Sem estrutura alguma, a reconstrução do país passa, obrigatoriamente, por uma bem articulada e planejada ajuda internacional. Ontem, foram veiculadas notícias de desentendimentos em relação à presença dos EUA, em Porto Príncipe. Não é hora de se discutir quem vai cuidar do espaço aéreo ou dos hospitais de campanha, quando centenas de pessoas são operadas sem anestesia e outros milhares ficam perambulando pelas ruas sem ter o que comer e nem o que beber.
Poupem-nos desses desencontros. Façam o que é melhor para o Haiti. Dêem esperança e futuro aos sobreviventes dessa tragédia.
O governo brasileiro já anunciou que vai continuar no Haiti por mais cinco anos e que quer participar da etapa de reconstrução. Outros países também se comprometeram a ser solidários com o Haiti. Infelizmente, sabemos como funcionam, na prática, essas ajudas internacionais. Passada a fase de grande exposição midiática, quando as imagens tocam profundamente às pessoas, e a sociedade sensibilizada cobra uma participação efetiva de seus governos, a tendência é dos governantes se afastarem lenta e gradualmente dos compromissos que assumiram.
Espero que isso não ocorra com o Haiti. Seria mais uma grande tragédia. Sem estrutura alguma, a reconstrução do país passa, obrigatoriamente, por uma bem articulada e planejada ajuda internacional. Ontem, foram veiculadas notícias de desentendimentos em relação à presença dos EUA, em Porto Príncipe. Não é hora de se discutir quem vai cuidar do espaço aéreo ou dos hospitais de campanha, quando centenas de pessoas são operadas sem anestesia e outros milhares ficam perambulando pelas ruas sem ter o que comer e nem o que beber.
Poupem-nos desses desencontros. Façam o que é melhor para o Haiti. Dêem esperança e futuro aos sobreviventes dessa tragédia.
sexta-feira, janeiro 15, 2010
Carros flex: de olho na bomba.
No último levantamento feito pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), são poucos os estados onde ainda compensa encher o tanque do carro com álcool. Os preços dispararam na bomba e o consumidor, de olho no bolso, esqueceu suas preocupações ambientais e migrou para a gasolina. Como medida extrema o governo reduziu a participação do álcool na mistura, acarretando problemas no desempenho dos carros sem a tecnologia flex, sem a garantia que vai haver maior oferta no mercado. Segundo dados da Unica- União da Indústria da Cana de Açúcar, o consumo de álcool hidratado, consumido pela frota de automóveis flex, em 2009 foi 26% superior a 2008. Já em relação ao álcool anidro (que é misturado à gasolina), o consumo segue estabilizado em 500 milhões de litros mês.
Aparentemente, a informação da Unica tem lógica. Praticamente 90% dos carros comercializados no Brasil são flex. No entanto, no mundo dos negócios, nem tudo acompanha o que é lógico. Sabe-se, por exemplo, que o preço do açúcar no mercado internacional, disparou. Em agosto de 2008, o Brasil exportou 110 mil toneladas de açúcar ao preço médio de 282 dólares/ton. Em janeiro de 2009, o Brasil exportou 400 mil toneladas a 328 dólares/ton. O que houve na prática foi um desvio considerável de cana para a produção de açúcar comprometendo a oferta de álcool no mercado brasileiro.
As empresas alegam que estavam descapitalizadas e precisaram fazer essa opção. Novamente, é meia verdade. Todos sabem o quanto governo brasileiro ajudou esse setor. Investiu em pesquisa, liberou recursos para investimento, garantiu e ampliou o mercado interno (reduzindo IPI dos automóveis flex) e teve na própria pessoa do Presidente Lula, um excelente incentivador do etanol como combustível limpo pelo mundo. O que se viu, é um filme já conhecido. O setor descapitalizado e endividado desconsiderou o mercado interno que foi fundamental na sua consolidação, virou as costas para o consumidor, que agora dá o troco abastecendo seu carro com a poluente gasolina. Entramos 2010 sem saber qual vai ser o destino que os usineiros vão dar para a nova safra de cana: se vai adoçar a mesa dos europeus ou abastecer o carro dos brasileiros? Enquanto isso o consumidor brasileiro fica com um olho na bomba e o outro no bolso.
Aparentemente, a informação da Unica tem lógica. Praticamente 90% dos carros comercializados no Brasil são flex. No entanto, no mundo dos negócios, nem tudo acompanha o que é lógico. Sabe-se, por exemplo, que o preço do açúcar no mercado internacional, disparou. Em agosto de 2008, o Brasil exportou 110 mil toneladas de açúcar ao preço médio de 282 dólares/ton. Em janeiro de 2009, o Brasil exportou 400 mil toneladas a 328 dólares/ton. O que houve na prática foi um desvio considerável de cana para a produção de açúcar comprometendo a oferta de álcool no mercado brasileiro.
As empresas alegam que estavam descapitalizadas e precisaram fazer essa opção. Novamente, é meia verdade. Todos sabem o quanto governo brasileiro ajudou esse setor. Investiu em pesquisa, liberou recursos para investimento, garantiu e ampliou o mercado interno (reduzindo IPI dos automóveis flex) e teve na própria pessoa do Presidente Lula, um excelente incentivador do etanol como combustível limpo pelo mundo. O que se viu, é um filme já conhecido. O setor descapitalizado e endividado desconsiderou o mercado interno que foi fundamental na sua consolidação, virou as costas para o consumidor, que agora dá o troco abastecendo seu carro com a poluente gasolina. Entramos 2010 sem saber qual vai ser o destino que os usineiros vão dar para a nova safra de cana: se vai adoçar a mesa dos europeus ou abastecer o carro dos brasileiros? Enquanto isso o consumidor brasileiro fica com um olho na bomba e o outro no bolso.
quinta-feira, janeiro 14, 2010
Zilda Arns, um exemplo de vida.
Normalmente quando as pessoas morrem, são referenciadas. É uma questão cultural. Bem brasileira: desconsideramos os valores pessoais quando em vida para valorizá-los depois da morte. Dona Zilda é uma das exceções dessa regra. Um exemplo de dedicação e fé durante a vida e que se encontra com a morte numa igreja, longe daqui, fazendo o que lhe dava mais motivação: lutar contra a pobreza e a mortalidade infantil. Não foi por acaso que ela estava no Haiti. Uma mulher que dedica boa parte de sua vida ao combate a desnutrição infantil, tinha muito a fazer no país mais pobre da América. Quis o destino que o terremoto acontecesse no dia que apresentava seus projetos numa igreja de Porto Príncipe.
Dentre as pessoas que melhor a conheciam, estava Frei Beto. Seu companheiro de inúmeras caminhadas. Sobre Dona Zilda, a quem chama de mãe do Brasil, assim ele a descreve na Folha de São de hoje:
“Pode-se repetir que ninguém é insubstituível, mas a Dra. Zilda Arns, vítima do terremoto que arruinou o Haiti, era, sim, uma pessoa imprescindível. Nela mostrava-se imperceptível a distância entre intenções e ações. Formada em medicina e movida por profundo espírito evangélico – era irmã do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo-, fundou a Pastoral da Criança, alarmada com o alto índice de mortalidade infantil no Brasil”.
Num outro momento, Frei Beto, ressalta o legado deixado pela Dra. Zilda, que é possível mudar o perfil de uma sociedade com ações comunitárias, voluntárias, da sociedade civil ainda que o poder público e a iniciativa privada permaneçam indiferentes. E, conclui: “se milhares de brasileiros sobreviveram às condições de pobreza em que nasceram, devem isso em especial à Dra. Zilda Arns”.
A publicação de trechos do texto que Zilda Arns havia preparado para a palestra em Porto Príncipe, retrata com fidelidade a alma dessa catarinense, nascida numa família de religiosos (três irmãs da Congregação de Nossa Senhora e dois irmãos franciscanos) e que tinha na fé, na bondade e na ação, suas principais aliadas. Assim começava sua apresentação no Haiti, momentos antes do terremoto: “Hoje vou compartilhar com vocês uma verdadeira história de amor e inspiração divina, um sonho que se fez realidade”. E partir daí, sua intenção era contar uma experiência de 26 anos à frente da Pastoral da Criança, uma rede presente em 42 mil comunidades pobres, envolvendo o trabalho voluntário de 260 mil pessoas.
Dentre as pessoas que melhor a conheciam, estava Frei Beto. Seu companheiro de inúmeras caminhadas. Sobre Dona Zilda, a quem chama de mãe do Brasil, assim ele a descreve na Folha de São de hoje:
“Pode-se repetir que ninguém é insubstituível, mas a Dra. Zilda Arns, vítima do terremoto que arruinou o Haiti, era, sim, uma pessoa imprescindível. Nela mostrava-se imperceptível a distância entre intenções e ações. Formada em medicina e movida por profundo espírito evangélico – era irmã do cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo-, fundou a Pastoral da Criança, alarmada com o alto índice de mortalidade infantil no Brasil”.
Num outro momento, Frei Beto, ressalta o legado deixado pela Dra. Zilda, que é possível mudar o perfil de uma sociedade com ações comunitárias, voluntárias, da sociedade civil ainda que o poder público e a iniciativa privada permaneçam indiferentes. E, conclui: “se milhares de brasileiros sobreviveram às condições de pobreza em que nasceram, devem isso em especial à Dra. Zilda Arns”.
A publicação de trechos do texto que Zilda Arns havia preparado para a palestra em Porto Príncipe, retrata com fidelidade a alma dessa catarinense, nascida numa família de religiosos (três irmãs da Congregação de Nossa Senhora e dois irmãos franciscanos) e que tinha na fé, na bondade e na ação, suas principais aliadas. Assim começava sua apresentação no Haiti, momentos antes do terremoto: “Hoje vou compartilhar com vocês uma verdadeira história de amor e inspiração divina, um sonho que se fez realidade”. E partir daí, sua intenção era contar uma experiência de 26 anos à frente da Pastoral da Criança, uma rede presente em 42 mil comunidades pobres, envolvendo o trabalho voluntário de 260 mil pessoas.
quarta-feira, janeiro 13, 2010
De olho no futuro - Parte II
Dando continuidade aos pensamentos de Wolfgang Grulke, outro ponto interessante da entrevista publicada no Mundo Corporativo, foi sobre o futuro papel do BRIC (bloco formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China). Enquanto Grulke vislumbra um mundo descentralizado ao extremo, dos remédios a produção de energia, a economia que mais cresce no mundo, a da China, apresenta um controle central muito forte. Já na Índia, o maior país com regime democrático do planeta, criou, em poucos anos, uma cultura incrivelmente empreendedora. A Rússia saiu de uma economia altamente centralizada e ainda enfrenta as conseqüências disso. O Brasil é a novidade. Historicamente um destacado parceiro comercial do Ocidente, soube, nos últimos anos, se aproximar também do Oriente. E isso é uma grande vantagem. Não podemos esquecer de que 70% das demandas do novo crescimento virão do Oriente, lembra Grulke.
Essa nova relação produção/consumo precisa ser planejada. E esse planejamento é fascinante porque é o novo. Hoje, se olharmos a indústria tradicional, quase tudo vem da China. No futuro, grande parte da fabricação será feita no ponto onde está a demanda, ou seja, em casa, na loja ou em qualquer lugar. Essencialmente, tudo o que faremos será circular informações e fabricar localmente. É uma importante revolução que está nascendo.
Quando indagado como o Brasil deve se preparar para esse novo modelo de desenvolvimento, Grulke responde que temos que perguntar como será a indústria brasileira daqui a 10 e 20 anos? Isso faz parte da estratégia industrial do país. O México, por exemplo, tem muitas fábricas na fronteira com os EUA, que produzem artigos para os americanos. Daqui a 10 ou 20 anos boa parte dessa produção deixará de ser feita. E aí como fica?
Encontrar oportunidades nos “espaços vazios”, onde não há concorrentes deve fazer parte de uma política industrial de médio e longo prazo. Novamente, para Grulke, o Brasil tem enormes vantagens. É líder natural no seu continente, tem excelente trânsito junto aos demais países, possui uma indústria diversificada. “Tomemos como exemplo a biotecnologia, a indústria farmacêutica e todas as maravilhosas substâncias naturais que existem na Amazônia. Uma das coisas que o Brasil pode criar é uma empresa farmacêutica, uma verdadeira líder mundial, baseada nos produtos naturais únicos que o País dispõe. Esse é um exemplo de espaço vazio. Ninguém poderia progredir com a rapidez de vocês e, com certeza, não terão nenhum concorrente”, comenta o professor.
(Fonte: Mundo Corporativo, por Camila Viegas-Lee, de Nova York)
HAITI - tragédia e dor.
O terremoto de 7 graus na Escala Richter, arrasou com Porto Príncipe, capital do país e onde mora 1/3 da população. O Haiti, considerado o país mais pobre da América Latina, com uma população de 9 milhões de habitantes, com um PIB de 14 bilhões de dólares (cem vezes menor do que o do Brasil), não precisava passar por essa tragédia. O número de mortos ainda não foi anunciado. No entanto, já se sabe que entre eles está a médica brasileira Zilda Arns. Catarinense de Forquilhinha, dona Zilda, 75 anos, sempre foi um exemplo de dedicação as causas sociais. Sobre sua morte assim se manifestou a senhora Vera Lúcia, Coordenadora da Pastoral da Criança, em Curitiba: "a gente não tem como expressar tamanha dor".
As informações durante a tarde eram bastante desencontradas sobre o número de vítimas e a extensão da tragédia. O que se sabe é que a Embaixada do Brasil, a sede da Minustah, onde fica a Missão da ONU e o próprio Palácio do Governo ruíram. São considerados os melhores prédios da capital, imaginem o que deve ter ocorrido com os demais.
Essa nova relação produção/consumo precisa ser planejada. E esse planejamento é fascinante porque é o novo. Hoje, se olharmos a indústria tradicional, quase tudo vem da China. No futuro, grande parte da fabricação será feita no ponto onde está a demanda, ou seja, em casa, na loja ou em qualquer lugar. Essencialmente, tudo o que faremos será circular informações e fabricar localmente. É uma importante revolução que está nascendo.
Quando indagado como o Brasil deve se preparar para esse novo modelo de desenvolvimento, Grulke responde que temos que perguntar como será a indústria brasileira daqui a 10 e 20 anos? Isso faz parte da estratégia industrial do país. O México, por exemplo, tem muitas fábricas na fronteira com os EUA, que produzem artigos para os americanos. Daqui a 10 ou 20 anos boa parte dessa produção deixará de ser feita. E aí como fica?
Encontrar oportunidades nos “espaços vazios”, onde não há concorrentes deve fazer parte de uma política industrial de médio e longo prazo. Novamente, para Grulke, o Brasil tem enormes vantagens. É líder natural no seu continente, tem excelente trânsito junto aos demais países, possui uma indústria diversificada. “Tomemos como exemplo a biotecnologia, a indústria farmacêutica e todas as maravilhosas substâncias naturais que existem na Amazônia. Uma das coisas que o Brasil pode criar é uma empresa farmacêutica, uma verdadeira líder mundial, baseada nos produtos naturais únicos que o País dispõe. Esse é um exemplo de espaço vazio. Ninguém poderia progredir com a rapidez de vocês e, com certeza, não terão nenhum concorrente”, comenta o professor.
(Fonte: Mundo Corporativo, por Camila Viegas-Lee, de Nova York)
HAITI - tragédia e dor.
O terremoto de 7 graus na Escala Richter, arrasou com Porto Príncipe, capital do país e onde mora 1/3 da população. O Haiti, considerado o país mais pobre da América Latina, com uma população de 9 milhões de habitantes, com um PIB de 14 bilhões de dólares (cem vezes menor do que o do Brasil), não precisava passar por essa tragédia. O número de mortos ainda não foi anunciado. No entanto, já se sabe que entre eles está a médica brasileira Zilda Arns. Catarinense de Forquilhinha, dona Zilda, 75 anos, sempre foi um exemplo de dedicação as causas sociais. Sobre sua morte assim se manifestou a senhora Vera Lúcia, Coordenadora da Pastoral da Criança, em Curitiba: "a gente não tem como expressar tamanha dor".
As informações durante a tarde eram bastante desencontradas sobre o número de vítimas e a extensão da tragédia. O que se sabe é que a Embaixada do Brasil, a sede da Minustah, onde fica a Missão da ONU e o próprio Palácio do Governo ruíram. São considerados os melhores prédios da capital, imaginem o que deve ter ocorrido com os demais.
terça-feira, janeiro 12, 2010
De olho no futuro
Autor do livro “10 Lessons from the future”, o estudioso Wolfgang Grulke, analisa um conjunto de previsões que irão impactar nas relações humanas no futuro, dando oportunidade para que sejam incorporadas no planejamento de médio e longo prazo, informações projetadas no tempo. Para ele, uma das grandes transformações é o ambiente da informação instantânea: qualquer pessoa, de qualquer idade, tem acesso instantâneo à informação. É algo revolucionário. O que nos diferencia é o que fazemos com esse conhecimento, como aplicamos e com que rapidez o assimilamos.
Outra sinalização do livro é para a biotecnologia. E a razão é simples. Novamente vem a informação: biotecnologia é também um processo de informação. O que Wolfgang explica, é que a indústria da biotecnologia para prosperar tem que dominar a Tecnologia da Informação (TI). Outra curiosidade é que a liderança dessa área deve ocorrer nos países que tenham um ótimo domínio do inglês. Para ele, a língua é um desafio para o Brasil. Uma boa iniciativa governamental é promover o ensino e o domínio do inglês. E isso é para agora. A indústria da biotecnologia deverá ser maior do que a da informática. O tamanho desse setor será superior a US$ 2 trilhões nos próximos cinco anos. “É, portanto, um mercado que cresce maciçamente em todo o mundo. E ela é mais importante do que a Tecnologia da Informação em termos comerciais e econômicos porque afeta tudo, da fabricação de um computador biológico à decodificação dos genes que causam o câncer ou à medicina personalizada. Por exemplo, atualmente, todos os laboratórios farmacêuticos ganham dinheiro com remédios de grande sucesso comercial, mas, provavelmente, dentro de dez anos, eles não existirão e as pessoas farão um mapa do DNA para que cada medicamento seja desenvolvido na hora, de acordo com o seu perfil genético. Além disso, como as pessoas viverão mais e de forma mais saudável, todos os setores restantes serão afetados. Esse é o ponto de fundo da situação”.
Que coisa fantástica, remédios individualizados. E isso vai acontecer nessa década, nos lembra Wolfgang. (Fonte: Mundo Corporativo/ Por Camila Viegas-Lee, Nova York)
Amanhã sigo comentando o homem que viu o futuro. Até lá.
Outra sinalização do livro é para a biotecnologia. E a razão é simples. Novamente vem a informação: biotecnologia é também um processo de informação. O que Wolfgang explica, é que a indústria da biotecnologia para prosperar tem que dominar a Tecnologia da Informação (TI). Outra curiosidade é que a liderança dessa área deve ocorrer nos países que tenham um ótimo domínio do inglês. Para ele, a língua é um desafio para o Brasil. Uma boa iniciativa governamental é promover o ensino e o domínio do inglês. E isso é para agora. A indústria da biotecnologia deverá ser maior do que a da informática. O tamanho desse setor será superior a US$ 2 trilhões nos próximos cinco anos. “É, portanto, um mercado que cresce maciçamente em todo o mundo. E ela é mais importante do que a Tecnologia da Informação em termos comerciais e econômicos porque afeta tudo, da fabricação de um computador biológico à decodificação dos genes que causam o câncer ou à medicina personalizada. Por exemplo, atualmente, todos os laboratórios farmacêuticos ganham dinheiro com remédios de grande sucesso comercial, mas, provavelmente, dentro de dez anos, eles não existirão e as pessoas farão um mapa do DNA para que cada medicamento seja desenvolvido na hora, de acordo com o seu perfil genético. Além disso, como as pessoas viverão mais e de forma mais saudável, todos os setores restantes serão afetados. Esse é o ponto de fundo da situação”.
Que coisa fantástica, remédios individualizados. E isso vai acontecer nessa década, nos lembra Wolfgang. (Fonte: Mundo Corporativo/ Por Camila Viegas-Lee, Nova York)
Amanhã sigo comentando o homem que viu o futuro. Até lá.
segunda-feira, janeiro 11, 2010
Terra viva
“Terra viva” procura resgatar uma viagem pelo mundo dos vinhedos feita por Jorge Lucki, publicada em setembro do ano passado pelo jornal Valor. Depois de assistir Avatar nesse domingo e escrever sobre o francês Michael Löwy no blog da última sexta-feira, resolvi tirar a poeira da matéria do Valor e escrever sobre vinhos. Aparentemente, vinhos e vinhedos não têm nada a ver com o filme de James Cameron e nem com as visões de uma sociedade ecossocialista de Löwy. No entanto, a mensagem que passam tem tudo a ver com o surgimento dos “vinhos biológicos” e as preocupações dos produtores com o meio ambiente.
O discurso dos benefícios do vinho à saúde não combina com vinhedos tratados com defensivos agrícolas. Importantes e tradicionais vinícolas já perceberam isso e o número de propriedades que adotou práticas orgânicas e cultura biológica é cada vez maior. Algumas delas já adotaram os conceitos antroposóficos desenvolvidos pelo filósofo austríaco Rudodf Steiner em 1924, comenta Jorge Lucki.
Segundo ele, “é uma proposta de retorno consciente do homem ao campo, com uma noção de respeito à terra e à vida, e na valorização das defesas naturais da planta, contando com as forças do universo. Todas as intervenções, que vão desde trabalhos específicos na vinha – plantar, podar, manejar o solo, lidar com as folhagens, e a colheita propriamente dita – até cada fase do processo de vinificação, seguem um calendário preciso que leva em consideração os ciclos lunares e a posição dos astros”.
O resultado não podia ser outro: vinhos de excelente qualidade. Embora seja cientificamente difícil de comprovar as benesses desse processo, experiências práticas, no entanto, atestam que os vinhos chamados de “biodinâmicos” atingem um grau de pureza e expressão superior. A aceitação desses vinhos no mercado internacional tem animado os produtores. Vinícolas reconhecidas por sua tradição tem se dedicado a produção de vinhos biodinâmicos consagrados, como, por exemplo: Breg Anfora 2004; Chianti Clássico Castello 2006; Weinbach Cuvée Riesling 2007; Matetic Syrah 2007; Pétalos do Bierzo 2006; Quinta Sardonia 2005; Rippon Pinot Noir 2005 entre outros.
A natureza agradece toda vez que dão a ela a possibilidade de se proteger da ação predatória do homem. Ela sabe tirar da própria terra o sustento, fechando o ciclo da vida (Avatar). O homem do campo, quando reconhece isso, encontra na natureza sua principal parceira. A agricultura orgânica é a resposta sustentável para sua atividade laboral. O campo agregando valor e dando qualidade de vida para os que na terra trabalham, é a única forma de se fazer o caminho inverso aliviando as grandes cidades do caos urbano. Ou alguém consegue imaginar viver em São Paulo com 30 milhões de pessoas? Ou em Florianópolis com cinco milhões de pessoas? (Terra doente/Löroy).
O discurso dos benefícios do vinho à saúde não combina com vinhedos tratados com defensivos agrícolas. Importantes e tradicionais vinícolas já perceberam isso e o número de propriedades que adotou práticas orgânicas e cultura biológica é cada vez maior. Algumas delas já adotaram os conceitos antroposóficos desenvolvidos pelo filósofo austríaco Rudodf Steiner em 1924, comenta Jorge Lucki.
Segundo ele, “é uma proposta de retorno consciente do homem ao campo, com uma noção de respeito à terra e à vida, e na valorização das defesas naturais da planta, contando com as forças do universo. Todas as intervenções, que vão desde trabalhos específicos na vinha – plantar, podar, manejar o solo, lidar com as folhagens, e a colheita propriamente dita – até cada fase do processo de vinificação, seguem um calendário preciso que leva em consideração os ciclos lunares e a posição dos astros”.
O resultado não podia ser outro: vinhos de excelente qualidade. Embora seja cientificamente difícil de comprovar as benesses desse processo, experiências práticas, no entanto, atestam que os vinhos chamados de “biodinâmicos” atingem um grau de pureza e expressão superior. A aceitação desses vinhos no mercado internacional tem animado os produtores. Vinícolas reconhecidas por sua tradição tem se dedicado a produção de vinhos biodinâmicos consagrados, como, por exemplo: Breg Anfora 2004; Chianti Clássico Castello 2006; Weinbach Cuvée Riesling 2007; Matetic Syrah 2007; Pétalos do Bierzo 2006; Quinta Sardonia 2005; Rippon Pinot Noir 2005 entre outros.
A natureza agradece toda vez que dão a ela a possibilidade de se proteger da ação predatória do homem. Ela sabe tirar da própria terra o sustento, fechando o ciclo da vida (Avatar). O homem do campo, quando reconhece isso, encontra na natureza sua principal parceira. A agricultura orgânica é a resposta sustentável para sua atividade laboral. O campo agregando valor e dando qualidade de vida para os que na terra trabalham, é a única forma de se fazer o caminho inverso aliviando as grandes cidades do caos urbano. Ou alguém consegue imaginar viver em São Paulo com 30 milhões de pessoas? Ou em Florianópolis com cinco milhões de pessoas? (Terra doente/Löroy).
sexta-feira, janeiro 08, 2010
Terra doente.
Conforme programado o último comentário sobre o Le Monde Diplomatique deixei para o artigo de Michael Löwy, cientista social e diretor de pesquisas do Centre National de La Recherche Scientifique da França. Para ele, “enfrentar os problemas climáticos, só com mudanças radicais, que atinjam os fundamentos do sistema capitalista e altere nossos hábitos de consumo e nossa relação com a natureza”. Nem todos gostam do que ele escreve, nem todos concordam com o que ele pensa. No entanto, sua visão de mundo tende a crescer nas próximas décadas com o esgotamento das potencialidades naturais da Terra. Uma boa leitura para o final de semana.
“Qual é a situação do planeta em plena Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas? Primeiro balanço: tudo está bem mais acelerado do que se previa. A acumulação de gás carbônico, a elevação da temperatura, o derretimento das geleiras polares e das neves eternas, a desertificação dos terrenos, as secas, as inundações, tudo se precipita, e os balanços dos cientistas, mal secou a tinta dos documentos, revelam-se demasiadamente otimistas. Tende-se agora a variações cada vez maiores nas previsões para o futuro próximo. Não se fala mais sobre o que vai acontecer no final do século, ou daqui a meio século, mas nos próximos 20, 30 ou 40 anos. A questão não é mais simplesmente sobre o planeta que deixaremos para os nossos filhos e netos, e sim sobre o futuro da atual geração.”
“A discussão desses piores cenários não é um exercício apocalíptico em vão: trata-se dos perigos reais, contra os quais é preciso tomar as medidas possíveis. Tampouco é fatalismo. Ainda não está tudo decidido, é tempo de agir para inverter o curso dos acontecimentos. Mas é preciso o pessimismo da razão em vez de deixar todo o seu lugar para o otimismo da vontade.....”
..... “Agora para enfrentar as disputas relativas à mudança climática- e à crise ecológica em geral, das quais essas são a expressão mais ameaçadora- é preciso uma mudança radical e estrutural, que atinja os fundamentos do sistema capitalista: uma transformação não só nas relações de produção, mas também das forças produtivas. Isso envolve, antes de mais nada, uma verdadeira revolução do sistema energético e de transportes e dos modos de consumo atuais. Em suma, trata-se de uma mudança de paradigma da civilização.”
“Com certeza, inúmeras conquistas científicas e tecnológicas do passado são preciosas, mas o conjunto do sistema produtivo deve ser colocado em questão do ponto de vista de sua compatibilidade com as exigências vitais de preservação do equilíbrio ecológico. Isso significa, a princípio, uma revolução energética: a substituição das energias não renováveis e responsáveis pela poluição, pelo envenenamento do meio ambiente e pelo aquecimento do planeta- carvão, petróleo e nuclear – por energias naturais, limpas e renováveis, como água, vento, e sol.”
Michael Löwy deixa algumas demandas imediatas que podem se tornar em pontos de convergência do que ele chama de “sociedade ecossocialista”:
- a substituição progressiva da energia fóssil por fontes de energia “limpa”, principalmente a solar;
- a promoção de transportes públicos – trens, metrôs, ônibus, bondes – baratos, muito baratos;
- desenvolvimento subsidiado da agricultura orgânica;
- redução do tempo de trabalho.
“Qual é a situação do planeta em plena Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas? Primeiro balanço: tudo está bem mais acelerado do que se previa. A acumulação de gás carbônico, a elevação da temperatura, o derretimento das geleiras polares e das neves eternas, a desertificação dos terrenos, as secas, as inundações, tudo se precipita, e os balanços dos cientistas, mal secou a tinta dos documentos, revelam-se demasiadamente otimistas. Tende-se agora a variações cada vez maiores nas previsões para o futuro próximo. Não se fala mais sobre o que vai acontecer no final do século, ou daqui a meio século, mas nos próximos 20, 30 ou 40 anos. A questão não é mais simplesmente sobre o planeta que deixaremos para os nossos filhos e netos, e sim sobre o futuro da atual geração.”
“A discussão desses piores cenários não é um exercício apocalíptico em vão: trata-se dos perigos reais, contra os quais é preciso tomar as medidas possíveis. Tampouco é fatalismo. Ainda não está tudo decidido, é tempo de agir para inverter o curso dos acontecimentos. Mas é preciso o pessimismo da razão em vez de deixar todo o seu lugar para o otimismo da vontade.....”
..... “Agora para enfrentar as disputas relativas à mudança climática- e à crise ecológica em geral, das quais essas são a expressão mais ameaçadora- é preciso uma mudança radical e estrutural, que atinja os fundamentos do sistema capitalista: uma transformação não só nas relações de produção, mas também das forças produtivas. Isso envolve, antes de mais nada, uma verdadeira revolução do sistema energético e de transportes e dos modos de consumo atuais. Em suma, trata-se de uma mudança de paradigma da civilização.”
“Com certeza, inúmeras conquistas científicas e tecnológicas do passado são preciosas, mas o conjunto do sistema produtivo deve ser colocado em questão do ponto de vista de sua compatibilidade com as exigências vitais de preservação do equilíbrio ecológico. Isso significa, a princípio, uma revolução energética: a substituição das energias não renováveis e responsáveis pela poluição, pelo envenenamento do meio ambiente e pelo aquecimento do planeta- carvão, petróleo e nuclear – por energias naturais, limpas e renováveis, como água, vento, e sol.”
Michael Löwy deixa algumas demandas imediatas que podem se tornar em pontos de convergência do que ele chama de “sociedade ecossocialista”:
- a substituição progressiva da energia fóssil por fontes de energia “limpa”, principalmente a solar;
- a promoção de transportes públicos – trens, metrôs, ônibus, bondes – baratos, muito baratos;
- desenvolvimento subsidiado da agricultura orgânica;
- redução do tempo de trabalho.
quinta-feira, janeiro 07, 2010
A vida em primeiro lugar
Riccardo Petrella é professor de ecologia humana da Academia de Arquitetura da Suíça, e professor emérito da cadeira de globalização da Universidade Católica da Bélgica. Nos eventos e palestras que participa ou nos artigos e estudos que publica, têm sido incisivo na necessidade dos países industrializados de reduzirem suas emissões de gases de efeito estufa. “Life first”, é sua mensagem. Fazer com que as pessoas compreendam que “a vida está em primeiro lugar”, não é uma tarefa fácil. O que aparentemente deveria ser algo natural encontra enormes barreiras na própria sociedade, acostumada a um modelo de produção e consumo que é uma ameaça a própria vida.
Será que as pessoas querem realmente mudar? Será que a famosa frase de George Bush, pai- “O modo de vida americano não é negociável”-, pronunciada para justificar sua recusa de participar do ECO-92, no Rio de Janeiro, não representa o pensamento da maioria do povo americano? Será que o fato dos Estados Unidos não ter assinado o Tratado de Kyoto, enquanto 184 países o fizeram, não é uma forma de preservar o modo de vida do povo americano? Será que agora em Copenhague o presidente Obama não teria condições de defender posições que encorajassem outros países a avançar num acordo climático global? E se tivesse por que não o fez?
Para o professor Petrella as lições que devem ser tiradas de Copenhague estão justamente na identificação das grandes barreiras que os países industrializados impõem as mudanças. A não aprovação em tempo hábil, pelo Senado americano, da lei sobre o clima, foi o golpe de misericórdia. As classes dirigentes reduziram a questão do futuro da humanidade a um problema de gestão “economicamente eficiente” dos recursos naturais, comenta Petrella. Eles entregaram aos mecanismos de mercado a tarefa de programar e avaliar essa gestão. Em decorrência disso, é impossível alcançar um verdadeiro acordo político mundial em torno da vida no planeta.
Essa mercantilização do ar e do clima deu à luz a inumeráveis instrumentos financeiros. Os Estados se limitam a facilitar a promoção e o bom funcionamento desses instrumentos seguindo a lógica do mercado, comprando e vendendo créditos de carbono. O que se espera, é romper com a estratégia do mercado, introduzindo duas medidas prioritárias: a mudança das regras do direito de propriedade intelectual e um plano financeiro público mundial. A primeira é determinante no caso das energias renováveis, transferindo conhecimento e tecnologia para os países em desenvolvimento. E a segunda medida tira das mãos do mercado as decisões globais, podendo reorientar enormes recursos para um novo modelo de desenvolvimento que considere “a vida em primeiro lugar”.
Estas propostas de mudanças independem do que acorreu em Copenhague. Os EUA fizeram sua opção: “American First”. Entretanto, existem condições reais de superar esse impasse, comenta o professor Petrella. Bastam alguns países da Europa Ocidental e da América Latina, e até mesmo da África, começarem a discutir e elaborar um projeto que dê vazão a esse sentimento forte por transformações. A história mostra que toda a vez que um grupo de nações tomou a decisão de prosseguir no caminho reconhecido como justo e oportuno para o interesse geral, os outros países se juntaram. Nessa questão climática, ninguém quer ficar de fora e ser cobrado pela história.
Estamos totalmente de acordo com o professor Riccardo Petrella escreveu, tanto assim que aproveitamos para socializar no blog parte do seu artigo publicado no Le Monde Diplomatique. E vamos continuar fazendo a nossa parte. Dia 19 de março, o Instituto IDEAL estará promovendo o seminário: “O MERCOSUL pós Copenhague”, justamente com o intuito de debater e propor a continuidade dessa luta junto aos países vizinhos. A América Latina só tem a ganhar com a implantação de um novo modelo de desenvolvimento. Pelo potencial natural que tem, pela criação de milhares de empregos verdes, por uma matriz energética limpa e como política de integração regional.
Será que as pessoas querem realmente mudar? Será que a famosa frase de George Bush, pai- “O modo de vida americano não é negociável”-, pronunciada para justificar sua recusa de participar do ECO-92, no Rio de Janeiro, não representa o pensamento da maioria do povo americano? Será que o fato dos Estados Unidos não ter assinado o Tratado de Kyoto, enquanto 184 países o fizeram, não é uma forma de preservar o modo de vida do povo americano? Será que agora em Copenhague o presidente Obama não teria condições de defender posições que encorajassem outros países a avançar num acordo climático global? E se tivesse por que não o fez?
Para o professor Petrella as lições que devem ser tiradas de Copenhague estão justamente na identificação das grandes barreiras que os países industrializados impõem as mudanças. A não aprovação em tempo hábil, pelo Senado americano, da lei sobre o clima, foi o golpe de misericórdia. As classes dirigentes reduziram a questão do futuro da humanidade a um problema de gestão “economicamente eficiente” dos recursos naturais, comenta Petrella. Eles entregaram aos mecanismos de mercado a tarefa de programar e avaliar essa gestão. Em decorrência disso, é impossível alcançar um verdadeiro acordo político mundial em torno da vida no planeta.
Essa mercantilização do ar e do clima deu à luz a inumeráveis instrumentos financeiros. Os Estados se limitam a facilitar a promoção e o bom funcionamento desses instrumentos seguindo a lógica do mercado, comprando e vendendo créditos de carbono. O que se espera, é romper com a estratégia do mercado, introduzindo duas medidas prioritárias: a mudança das regras do direito de propriedade intelectual e um plano financeiro público mundial. A primeira é determinante no caso das energias renováveis, transferindo conhecimento e tecnologia para os países em desenvolvimento. E a segunda medida tira das mãos do mercado as decisões globais, podendo reorientar enormes recursos para um novo modelo de desenvolvimento que considere “a vida em primeiro lugar”.
Estas propostas de mudanças independem do que acorreu em Copenhague. Os EUA fizeram sua opção: “American First”. Entretanto, existem condições reais de superar esse impasse, comenta o professor Petrella. Bastam alguns países da Europa Ocidental e da América Latina, e até mesmo da África, começarem a discutir e elaborar um projeto que dê vazão a esse sentimento forte por transformações. A história mostra que toda a vez que um grupo de nações tomou a decisão de prosseguir no caminho reconhecido como justo e oportuno para o interesse geral, os outros países se juntaram. Nessa questão climática, ninguém quer ficar de fora e ser cobrado pela história.
Estamos totalmente de acordo com o professor Riccardo Petrella escreveu, tanto assim que aproveitamos para socializar no blog parte do seu artigo publicado no Le Monde Diplomatique. E vamos continuar fazendo a nossa parte. Dia 19 de março, o Instituto IDEAL estará promovendo o seminário: “O MERCOSUL pós Copenhague”, justamente com o intuito de debater e propor a continuidade dessa luta junto aos países vizinhos. A América Latina só tem a ganhar com a implantação de um novo modelo de desenvolvimento. Pelo potencial natural que tem, pela criação de milhares de empregos verdes, por uma matriz energética limpa e como política de integração regional.
quarta-feira, janeiro 06, 2010
Para os chilenos, Michelle
Enquanto o mundo se encanta com Michelle Bachelet, a primeira mulher presidenta de um país latino, com a popularidade em alta, admirada pelo seu povo, analistas políticos se perguntam: por que então a possível volta do conservadorismo no Chile?
Ao contrário das recentes eleições no Uruguai e na Bolívia, onde os candidatos da situação confirmaram nas urnas seu favoritismo, no Chile, tudo indica que a Concertación de Partidos por la Democracia- conhecida simplesmente como Concertación-, coalizão que reúne democratas cristãos, liberais, social-democratas e socialistas, que elegeu em 2006 Bachelet, dificilmente conseguirá nas urnas os votos necessários para se manter no poder.
Diante do provável retorno dos conservadores, Líbio Pérez, jornalista e profundo conhecedor da política no Chile, escreveu no Le Monde Diplomatique, retrocessos e avanços do governo Bachelet. A matéria mostra um governo com rédeas curtas na área econômica, que soube enfrentar a crise global, mas não atendeu os principais problemas sociais. Como achei interessante o que li, resolvi comentar no blog para conhecermos um pouco melhor o Chile, importante vizinho do Brasil, que num passado recente passou por uma das mais violentas ditaduras implantadas no nosso continente.
Durante seu mandato, relembra Libio Pérez, Michelle, como é chamada por boa parte dos chilenos, colocou em prática uma série de programas e reformas destinados a melhorar a qualidade de vida da população. Ampliou o programa “pensão solidária” e criou uma rede nacional de creches – serão 3500 em 2010. Os gastos públicos aumentaram e a receita caiu nos primeiros três anos do seu governo. O principal motivo foi à crise econômica global que afetou a demanda e os preços do cobre, principal produto chileno nos mercados internacionais.
No início de 2008, sentindo que a crise vinha para valer, Bachelet fez “do limão uma limonada”. Rapidamente se programou e anunciou um exitoso plano de combate ao desemprego. E essa é uma das razões de sua popularidade. A população entendeu o esforço, oportunismo e determinação de Bachelet.
Mas a vida não tem sido fácil para essa mulher que entrou para o Partido Socialista no início da década de setenta. Que teve seus estudos na faculdade de medicina interrompidos pelo golpe militar de 1973. Que teve seu pai, o general da Força Aérea, Alberto Bachelet, morto pelo regime, como resultado de inúmeras torturas. Mesmo dentro da Concertación, sua liderança é questionada pelas elites partidárias. Consciente disso, ela se propôs a governar dando maior ênfase à participação e à consulta popular, abrindo espaço para caras novas entre seus colaboradores. Claro que isso incomodou velhas raposas da política que se sentiram preteridos.
Quando na política você se indispõe com a cúpula partidária, vem o troco. Parece que é o que está se passando no Chile. Michelle Bachelet, popular e querida do povo chileno, viu seu candidato Eduardo Frei – ex-chefe de Estado, sofrer para chegar em segundo lugar nas eleições de dezembro. Agora, em janeiro, no segundo turno, é provável que seja derrotado pelo conservador Sebastián Piñera.
Ao contrário das recentes eleições no Uruguai e na Bolívia, onde os candidatos da situação confirmaram nas urnas seu favoritismo, no Chile, tudo indica que a Concertación de Partidos por la Democracia- conhecida simplesmente como Concertación-, coalizão que reúne democratas cristãos, liberais, social-democratas e socialistas, que elegeu em 2006 Bachelet, dificilmente conseguirá nas urnas os votos necessários para se manter no poder.
Diante do provável retorno dos conservadores, Líbio Pérez, jornalista e profundo conhecedor da política no Chile, escreveu no Le Monde Diplomatique, retrocessos e avanços do governo Bachelet. A matéria mostra um governo com rédeas curtas na área econômica, que soube enfrentar a crise global, mas não atendeu os principais problemas sociais. Como achei interessante o que li, resolvi comentar no blog para conhecermos um pouco melhor o Chile, importante vizinho do Brasil, que num passado recente passou por uma das mais violentas ditaduras implantadas no nosso continente.
Durante seu mandato, relembra Libio Pérez, Michelle, como é chamada por boa parte dos chilenos, colocou em prática uma série de programas e reformas destinados a melhorar a qualidade de vida da população. Ampliou o programa “pensão solidária” e criou uma rede nacional de creches – serão 3500 em 2010. Os gastos públicos aumentaram e a receita caiu nos primeiros três anos do seu governo. O principal motivo foi à crise econômica global que afetou a demanda e os preços do cobre, principal produto chileno nos mercados internacionais.
No início de 2008, sentindo que a crise vinha para valer, Bachelet fez “do limão uma limonada”. Rapidamente se programou e anunciou um exitoso plano de combate ao desemprego. E essa é uma das razões de sua popularidade. A população entendeu o esforço, oportunismo e determinação de Bachelet.
Mas a vida não tem sido fácil para essa mulher que entrou para o Partido Socialista no início da década de setenta. Que teve seus estudos na faculdade de medicina interrompidos pelo golpe militar de 1973. Que teve seu pai, o general da Força Aérea, Alberto Bachelet, morto pelo regime, como resultado de inúmeras torturas. Mesmo dentro da Concertación, sua liderança é questionada pelas elites partidárias. Consciente disso, ela se propôs a governar dando maior ênfase à participação e à consulta popular, abrindo espaço para caras novas entre seus colaboradores. Claro que isso incomodou velhas raposas da política que se sentiram preteridos.
Quando na política você se indispõe com a cúpula partidária, vem o troco. Parece que é o que está se passando no Chile. Michelle Bachelet, popular e querida do povo chileno, viu seu candidato Eduardo Frei – ex-chefe de Estado, sofrer para chegar em segundo lugar nas eleições de dezembro. Agora, em janeiro, no segundo turno, é provável que seja derrotado pelo conservador Sebastián Piñera.
terça-feira, janeiro 05, 2010
"L'etat demantele"
O ano de 2009 foi a ano da França no Brasil. Uma série de acordos, atividades culturais, boas relações presidenciais, aproximaram nossos países a tal ponto que o principal jornal francês, o Le Monde, homenageou o presidente Lula como o personagem do ano. Outros importantes jornais já tinham também referenciado o nosso presidente, mas o Le Monde é diferente. Um jornal de grande tradição, com um Conselho Editorial rigoroso, deve ter suas razões para identificar no presidente do Brasil atributos que tenham levado a tamanha honraria.
Na edição especial do Le Monde Diplomatique de dezembro, sobre as relações econômicas e políticas no ano da França no Brasil, selecionei alguns artigos que irei socializar e comentar com vocês durante essa semana. O primeiro artigo, oportuno em razão da crise global que atravessamos, é de autoria de Laurent Bonelli e Willy Pelletier. Trata de um resumo de uma discussão intitulada “L’etat demantele”.
Os autores mostram uma fotografia preocupante do Estado francês, literalmente, desmantelado. Para eles, a redução do estado pode ser percebida de maneira particularmente radical na revisão geral de políticas lançada em 20 de junho de 2007. A reforma atingiu todos os setores. Desde o sistema judiciário até a educação. Até o final de 2010, 178 tribunais de instâncias e 23 tribunais superiores serão eliminados em nome da “eficiência”. O Ministério da Educação está fechando colégios com menos de 200 alunos, considerados muito custosos. Só na área do ensino, a reforma irá eliminar mais de 15 mil cargos de professores, segundo Claude Allègre, ex-ministro da pasta.
O desmonte do Estado é geral. No Ministério do Interior, responsável pelo apoio as prefeituras e subprefeituras, a torneira fechou, submetendo os prefeitos a uma cruel “dieta”. O Ministério da Defesa também seguiu a mesma tendência: fechando quartéis e eliminando 45 mil empregos até 2014. As empresas públicas francesas, conhecidas mundialmente, como a Gaz de France, a Eletricité de France e a Société Nationale dês Chemins, estão ameaçadas de serem privatizadas. A Lei Liberdade e Responsabilidade é outra ameaça que paira sobre as universidades públicas francesas. As chamadas Agências Regionais de Saúde (ARS), responsáveis por toda a rede de saúde em nível regional, tiveram suas chefias preenchidas pelos chamados “prefeito sanitário”, cujos salários são definidos conforme “os resultados”.
O significado de seu trabalho (e de si mesmo com relação ao autodesempenho) entra em contradição com os novos critérios de avaliação. Cotidianamente, o exercício da profissão se torna uma missão impossível. O esgotamento profissional que se segue é incompatível com as diversas formas de “gerenciamento de objetivos”. Como resultado aumentou as taxas de suicídios ou tentativas, feitas por doenças e uso psicotrópicos. “Chegamos todos os dias ao trabalho já em contagem regressiva para sair. A conversa entre os colegas é sempre sobre quanto tempo resta para se aposentar”, afirma Pierre Le Goas, do Serviço de Impostos sobre Pessoas Físicas.
Os franceses protestam. Juízes, advogados, professores e funcionários públicos estão mobilizados. Cerca de 50 mil assalariados do Pôle Emploi entraram em greve em outubro de 2009. Em 2010 é um ano onde são esperadas inúmeras manifestações. Não sei se Sarkozy conversa com Lula sobre sua política interna. Seria bom ouvi-lo. Já comentei anteriormente que o Brasil saiu da crise em função do triunfo do Estado gestor. Quando precisamos de crédito para movimentar nossa economia foram os bancos públicos que fizeram sua parte. As funções de Estado estão preservadas no Brasil. Concursos públicos fazem parte do dia a dia do brasileiro. Novas escolas técnicas e universidades estão sendo criadas. Empresas públicas saíram da lista das privatizações, recuperam suas funções e retomam seus investimentos. Todo esse esforço e essa superação, com certeza, foram observados pelo jornal francês quando escolheu Lula como o Homem do Ano.
Isso que a foto do Presidente carregando um isopor na cabeça, ainda não tinha sido publicada. Quando eu vi o presidente Lula, na praia, carregando seu próprio isopor, logo pensei: é a foto do ano. No outro dia estava em todos os jornais. Não há nada no verão que se identifique mais com o brasileiro que um isopor na praia. Vamos aguardar a próxima pesquisa. A popularidade do presidente Lula deve ter subido mais um pouco. Agora, imaginem a mesma cena com o Serra ou com a Dilma ? ? ? ?
Na edição especial do Le Monde Diplomatique de dezembro, sobre as relações econômicas e políticas no ano da França no Brasil, selecionei alguns artigos que irei socializar e comentar com vocês durante essa semana. O primeiro artigo, oportuno em razão da crise global que atravessamos, é de autoria de Laurent Bonelli e Willy Pelletier. Trata de um resumo de uma discussão intitulada “L’etat demantele”.
Os autores mostram uma fotografia preocupante do Estado francês, literalmente, desmantelado. Para eles, a redução do estado pode ser percebida de maneira particularmente radical na revisão geral de políticas lançada em 20 de junho de 2007. A reforma atingiu todos os setores. Desde o sistema judiciário até a educação. Até o final de 2010, 178 tribunais de instâncias e 23 tribunais superiores serão eliminados em nome da “eficiência”. O Ministério da Educação está fechando colégios com menos de 200 alunos, considerados muito custosos. Só na área do ensino, a reforma irá eliminar mais de 15 mil cargos de professores, segundo Claude Allègre, ex-ministro da pasta.
O desmonte do Estado é geral. No Ministério do Interior, responsável pelo apoio as prefeituras e subprefeituras, a torneira fechou, submetendo os prefeitos a uma cruel “dieta”. O Ministério da Defesa também seguiu a mesma tendência: fechando quartéis e eliminando 45 mil empregos até 2014. As empresas públicas francesas, conhecidas mundialmente, como a Gaz de France, a Eletricité de France e a Société Nationale dês Chemins, estão ameaçadas de serem privatizadas. A Lei Liberdade e Responsabilidade é outra ameaça que paira sobre as universidades públicas francesas. As chamadas Agências Regionais de Saúde (ARS), responsáveis por toda a rede de saúde em nível regional, tiveram suas chefias preenchidas pelos chamados “prefeito sanitário”, cujos salários são definidos conforme “os resultados”.
O significado de seu trabalho (e de si mesmo com relação ao autodesempenho) entra em contradição com os novos critérios de avaliação. Cotidianamente, o exercício da profissão se torna uma missão impossível. O esgotamento profissional que se segue é incompatível com as diversas formas de “gerenciamento de objetivos”. Como resultado aumentou as taxas de suicídios ou tentativas, feitas por doenças e uso psicotrópicos. “Chegamos todos os dias ao trabalho já em contagem regressiva para sair. A conversa entre os colegas é sempre sobre quanto tempo resta para se aposentar”, afirma Pierre Le Goas, do Serviço de Impostos sobre Pessoas Físicas.
Os franceses protestam. Juízes, advogados, professores e funcionários públicos estão mobilizados. Cerca de 50 mil assalariados do Pôle Emploi entraram em greve em outubro de 2009. Em 2010 é um ano onde são esperadas inúmeras manifestações. Não sei se Sarkozy conversa com Lula sobre sua política interna. Seria bom ouvi-lo. Já comentei anteriormente que o Brasil saiu da crise em função do triunfo do Estado gestor. Quando precisamos de crédito para movimentar nossa economia foram os bancos públicos que fizeram sua parte. As funções de Estado estão preservadas no Brasil. Concursos públicos fazem parte do dia a dia do brasileiro. Novas escolas técnicas e universidades estão sendo criadas. Empresas públicas saíram da lista das privatizações, recuperam suas funções e retomam seus investimentos. Todo esse esforço e essa superação, com certeza, foram observados pelo jornal francês quando escolheu Lula como o Homem do Ano.
Isso que a foto do Presidente carregando um isopor na cabeça, ainda não tinha sido publicada. Quando eu vi o presidente Lula, na praia, carregando seu próprio isopor, logo pensei: é a foto do ano. No outro dia estava em todos os jornais. Não há nada no verão que se identifique mais com o brasileiro que um isopor na praia. Vamos aguardar a próxima pesquisa. A popularidade do presidente Lula deve ter subido mais um pouco. Agora, imaginem a mesma cena com o Serra ou com a Dilma ? ? ? ?
segunda-feira, janeiro 04, 2010
Mortes anunciadas
No blog do dia 18 de dezembro, escrevi: “as chuvas que antes molhavam, agora matam!”. Doze dias depois, na região de Angra dos Reis, a chuva e suas conseqüências deixam mais de 50 mortos. Para uns, uma fatalidade. Para outros, uma tragédia. Para as famílias uma profunda dor. No entanto, olhando as imagens, reafirmo: uma irresponsabilidade do poder público. E isto tem que ser repetido inúmeras vezes, até que um dia alguém seja responsabilizado pelas mortes ocorridas.
A chuva é um fenômeno natural. Ela não pode ser responsabilizada por nada. Impedir, com edificações, que a chuva encontre seu caminho natural é o que provoca as tragédias. E as tragédias se repetem. Foi aqui em Santa Catarina, no final de 2008, na cidade de São Paulo quase todas as semanas e agora no Rio de Janeiro. O que me impressiona é ver o poder público indiferente a essa situação. Ele só é acionado depois do fato consumado. Defesa civil, bombeiros e heróicos voluntários, aparecem nos noticiários removendo escombros, encontrando vidas, chorando mortes. Até quando vai ser assim?
Planejar o crescimento das nossas cidades talvez seja um dos principais desafios das próximas décadas. Boa parte delas falidas, não atendem mais as necessidades das pessoas que nelas vivem. São Paulo, com seus engarrafamentos e alagamentos, talvez seja a que melhor simbolize a falta de planejamento urbano e de crescimento desordenado. A ocupação irregular do solo, visível em Angra dos Reis e em Florianópolis, por exemplo, exige respostas do poder público. É impossível que um prefeito não pense numa tragédia, olhando para os morros de suas cidades, com suas encostas inclinadas ocupadas por casas irregulares. Cabe sim, ao poder publico impedir a proliferação de construções em áreas de risco. Deve sim, o poder público interferir com rigor nessas situações
Em 1975, trabalhei como engenheiro no Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica, o antigo DNAEE. Através de um convênio Brasil/EUA, fui fazer um curso de especialização no US Geological Survey. É um departamento do governo dos EUA responsável pelo mapeamento de áreas de risco em regiões urbanas. As prefeituras são obrigadas a preservar aquelas áreas e proibir qualquer edificação que interfira no curso natural do escoamento das águas. A intenção do convênio era de se implantar algo semelhante no Brasil. Em 1990, portanto há vinte anos, o presidente Collor acabou com o DNAEE. De lá prá cá a ocupação das cidades só tem agravado a situação. As enchentes são cada vez mais freqüentes e as tragédias também.
A chuva é um fenômeno natural. Ela não pode ser responsabilizada por nada. Impedir, com edificações, que a chuva encontre seu caminho natural é o que provoca as tragédias. E as tragédias se repetem. Foi aqui em Santa Catarina, no final de 2008, na cidade de São Paulo quase todas as semanas e agora no Rio de Janeiro. O que me impressiona é ver o poder público indiferente a essa situação. Ele só é acionado depois do fato consumado. Defesa civil, bombeiros e heróicos voluntários, aparecem nos noticiários removendo escombros, encontrando vidas, chorando mortes. Até quando vai ser assim?
Planejar o crescimento das nossas cidades talvez seja um dos principais desafios das próximas décadas. Boa parte delas falidas, não atendem mais as necessidades das pessoas que nelas vivem. São Paulo, com seus engarrafamentos e alagamentos, talvez seja a que melhor simbolize a falta de planejamento urbano e de crescimento desordenado. A ocupação irregular do solo, visível em Angra dos Reis e em Florianópolis, por exemplo, exige respostas do poder público. É impossível que um prefeito não pense numa tragédia, olhando para os morros de suas cidades, com suas encostas inclinadas ocupadas por casas irregulares. Cabe sim, ao poder publico impedir a proliferação de construções em áreas de risco. Deve sim, o poder público interferir com rigor nessas situações
Em 1975, trabalhei como engenheiro no Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica, o antigo DNAEE. Através de um convênio Brasil/EUA, fui fazer um curso de especialização no US Geological Survey. É um departamento do governo dos EUA responsável pelo mapeamento de áreas de risco em regiões urbanas. As prefeituras são obrigadas a preservar aquelas áreas e proibir qualquer edificação que interfira no curso natural do escoamento das águas. A intenção do convênio era de se implantar algo semelhante no Brasil. Em 1990, portanto há vinte anos, o presidente Collor acabou com o DNAEE. De lá prá cá a ocupação das cidades só tem agravado a situação. As enchentes são cada vez mais freqüentes e as tragédias também.
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