sexta-feira, janeiro 15, 2010

Carros flex: de olho na bomba.

No último levantamento feito pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), são poucos os estados onde ainda compensa encher o tanque do carro com álcool. Os preços dispararam na bomba e o consumidor, de olho no bolso, esqueceu suas preocupações ambientais e migrou para a gasolina. Como medida extrema o governo reduziu a participação do álcool na mistura, acarretando problemas no desempenho dos carros sem a tecnologia flex, sem a garantia que vai haver maior oferta no mercado. Segundo dados da Unica- União da Indústria da Cana de Açúcar, o consumo de álcool hidratado, consumido pela frota de automóveis flex, em 2009 foi 26% superior a 2008. Já em relação ao álcool anidro (que é misturado à gasolina), o consumo segue estabilizado em 500 milhões de litros mês.

Aparentemente, a informação da Unica tem lógica. Praticamente 90% dos carros comercializados no Brasil são flex. No entanto, no mundo dos negócios, nem tudo acompanha o que é lógico. Sabe-se, por exemplo, que o preço do açúcar no mercado internacional, disparou. Em agosto de 2008, o Brasil exportou 110 mil toneladas de açúcar ao preço médio de 282 dólares/ton. Em janeiro de 2009, o Brasil exportou 400 mil toneladas a 328 dólares/ton. O que houve na prática foi um desvio considerável de cana para a produção de açúcar comprometendo a oferta de álcool no mercado brasileiro.

As empresas alegam que estavam descapitalizadas e precisaram fazer essa opção. Novamente, é meia verdade. Todos sabem o quanto governo brasileiro ajudou esse setor. Investiu em pesquisa, liberou recursos para investimento, garantiu e ampliou o mercado interno (reduzindo IPI dos automóveis flex) e teve na própria pessoa do Presidente Lula, um excelente incentivador do etanol como combustível limpo pelo mundo. O que se viu, é um filme já conhecido. O setor descapitalizado e endividado desconsiderou o mercado interno que foi fundamental na sua consolidação, virou as costas para o consumidor, que agora dá o troco abastecendo seu carro com a poluente gasolina. Entramos 2010 sem saber qual vai ser o destino que os usineiros vão dar para a nova safra de cana: se vai adoçar a mesa dos europeus ou abastecer o carro dos brasileiros? Enquanto isso o consumidor brasileiro fica com um olho na bomba e o outro no bolso.

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