Riccardo Petrella é professor de ecologia humana da Academia de Arquitetura da Suíça, e professor emérito da cadeira de globalização da Universidade Católica da Bélgica. Nos eventos e palestras que participa ou nos artigos e estudos que publica, têm sido incisivo na necessidade dos países industrializados de reduzirem suas emissões de gases de efeito estufa. “Life first”, é sua mensagem. Fazer com que as pessoas compreendam que “a vida está em primeiro lugar”, não é uma tarefa fácil. O que aparentemente deveria ser algo natural encontra enormes barreiras na própria sociedade, acostumada a um modelo de produção e consumo que é uma ameaça a própria vida.
Será que as pessoas querem realmente mudar? Será que a famosa frase de George Bush, pai- “O modo de vida americano não é negociável”-, pronunciada para justificar sua recusa de participar do ECO-92, no Rio de Janeiro, não representa o pensamento da maioria do povo americano? Será que o fato dos Estados Unidos não ter assinado o Tratado de Kyoto, enquanto 184 países o fizeram, não é uma forma de preservar o modo de vida do povo americano? Será que agora em Copenhague o presidente Obama não teria condições de defender posições que encorajassem outros países a avançar num acordo climático global? E se tivesse por que não o fez?
Para o professor Petrella as lições que devem ser tiradas de Copenhague estão justamente na identificação das grandes barreiras que os países industrializados impõem as mudanças. A não aprovação em tempo hábil, pelo Senado americano, da lei sobre o clima, foi o golpe de misericórdia. As classes dirigentes reduziram a questão do futuro da humanidade a um problema de gestão “economicamente eficiente” dos recursos naturais, comenta Petrella. Eles entregaram aos mecanismos de mercado a tarefa de programar e avaliar essa gestão. Em decorrência disso, é impossível alcançar um verdadeiro acordo político mundial em torno da vida no planeta.
Essa mercantilização do ar e do clima deu à luz a inumeráveis instrumentos financeiros. Os Estados se limitam a facilitar a promoção e o bom funcionamento desses instrumentos seguindo a lógica do mercado, comprando e vendendo créditos de carbono. O que se espera, é romper com a estratégia do mercado, introduzindo duas medidas prioritárias: a mudança das regras do direito de propriedade intelectual e um plano financeiro público mundial. A primeira é determinante no caso das energias renováveis, transferindo conhecimento e tecnologia para os países em desenvolvimento. E a segunda medida tira das mãos do mercado as decisões globais, podendo reorientar enormes recursos para um novo modelo de desenvolvimento que considere “a vida em primeiro lugar”.
Estas propostas de mudanças independem do que acorreu em Copenhague. Os EUA fizeram sua opção: “American First”. Entretanto, existem condições reais de superar esse impasse, comenta o professor Petrella. Bastam alguns países da Europa Ocidental e da América Latina, e até mesmo da África, começarem a discutir e elaborar um projeto que dê vazão a esse sentimento forte por transformações. A história mostra que toda a vez que um grupo de nações tomou a decisão de prosseguir no caminho reconhecido como justo e oportuno para o interesse geral, os outros países se juntaram. Nessa questão climática, ninguém quer ficar de fora e ser cobrado pela história.
Estamos totalmente de acordo com o professor Riccardo Petrella escreveu, tanto assim que aproveitamos para socializar no blog parte do seu artigo publicado no Le Monde Diplomatique. E vamos continuar fazendo a nossa parte. Dia 19 de março, o Instituto IDEAL estará promovendo o seminário: “O MERCOSUL pós Copenhague”, justamente com o intuito de debater e propor a continuidade dessa luta junto aos países vizinhos. A América Latina só tem a ganhar com a implantação de um novo modelo de desenvolvimento. Pelo potencial natural que tem, pela criação de milhares de empregos verdes, por uma matriz energética limpa e como política de integração regional.
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