terça-feira, maio 10, 2011

Código Florestal: ameaça a vista

Cerca de 600 km separam Paris de Grenoble. Mais ou menos a mesma distância separa Berlim de Frankfurt. Por necessidade de trabalho precisei fazer os dois trajetos. Minha opção foi por terra: trem e carro. As áreas da França e da Alemanha são equivalentes a dos estados do Rio Grande do Sul mais Santa Catarina. No entanto, a população de cada um é cerca de 7 vezes maior do que gauchos e catarinenses somados. Feita essas observações iniciais pode-se constatar que eles precisam muito mais de terra do que nós. Se formos considerar o inverno rigoroso, áreas desapropriadas para auto-estradas e inúmeras ferrovias, a necessidade de terra para produção de alimento é ainda muito maior. No entanto o que observei por onde andei, são áreas plantadas envolvidas por áreas reflorestadas. As nascentes dos rios totalmente preservadas. O famoso Sena, por exemplo, não passa de um pequeno fio d'agua que nasce nas proximidades Dijon. Ao longo dos 200 km que separam a nascente de Paris, o que se vê é mata ciliar protegendo suas margens, possibilitando sua condição de navegalidade. Escrevo sobre o que vi na distante Europa, onde o cultivo da terra se mistura com preservação ambiental, no dia que se anuncia a votação do Código Florestal no Congresso, justamente para alertar sobre o risco que corremos de ver aprovada uma legislação bem menos restritiva.

Conheço os interesses que estão em jogo e sei da capacidade e poder de articulação que tem junto a Câmara e ao Senado. Vão tentar flexibilizar ao máximo a legislação ambiental alegando a necessidade de se aumentar as áreas plantadas. Vão querer retirar a obrigatoriedade dos proprietários rurais recomporem as áreas de reserva legal. Vão propor a anistia dos que desmataram ilegalmente.

No momento em que tanto se fala da necessidade de estimular o homem do campo a permanecer na atividade rural, de agregar valor as pequenas propriedades, a hora é de se propor e de se implementar medidas práticas nessa direção. Remunerar quem mantêm "mato em pé", por exemplo, pode ser uma boa iniciativa. Precisamos nos acostumar com a idéia de quantificar e remunerar a proteção do meio ambiente e da biodiversidade. Exercitar e projetar essa nova possibilidade de renda no campo é o que deve ser incorporado pelo novo Código Florestal. Cabe aos congressistas terem essa percepção.

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