Os bons ventos sopram no país vizinho. A eleição do segundo turno, que ocorre hoje, foi participativa e tranqüila. Durante o dia observei várias sessões eleitorais, conversei com algumas pessoas. Vi em todos uma satisfação muito grande por estarem participando de mais um processo eleitoral. Pessoas idosas, com dificuldades de se locomoverem, também se fizeram presentes. De uma senhora, com 93 anos, acompanhada pelo neto, ouvi: “mi gusta votar, mi encanta toda la movimentacíon”. A votação começou às 8 hs e se encerra às 18:30 hs. Logo as pesquisas de boca de urna vão começar a apresentar os primeiros resultados. Tudo aponta para uma vitória folgada do candidato da Frente Ampla, José Mujica sobre Luís Alberto Lacalle, do Partido Nacional, respaldado pelos Colorados.
Três felizes coincidências me relacionam com eleições no Uruguai. A primeira, foi quando da eleição de Tabaré Vásquez, em 2004, quando estive aqui como observador internacional. Depois, no primeiro turno, quando estava à convite do CEFIR apresentando nosso projeto de integração regional, através de uma matriz energética limpa, e pude acompanhar toda a movimentação das ruas. E, agora, participando do segundo turno, em função da última reunião do Parlasul, marcada para amanhã. E o mais surpreendente é que no hotel que sempre ficamos, o NH Colúmbia, é o QG da Frente Ampla. Portanto, estou escrevendo, literalmente, em cima dos fatos. Da janela do meu quarto começo a ver as bandeiras azuis, vermelhas e brancas tomarem conta da Rambla. Logo, Mujica, Astori e seus correligionários, chegam no hotel. Toda a imprensa mundial, os aguarda. Afinal, não é para menos, a se confirmar o que vimos, Mujica será o primeiro presidente tupamaro do Uruguai.
Por necessidade de conhecer o que está ocorrendo com os países latinos, em função do Instituto IDEAL, tenho acompanhado as movimentações políticas da região com atenção. Essa mudança do eleitorado, nos últimos anos, buscando alternativas mais a esquerda, veio para ficar. Novamente utilizo o que está se passando com o Uruguai para justificar esse meu comentário. Um país que conviveu com uma ditadura sangrenta, historicamente conservador, sem indústria e, por conseqüência, sem grandes sindicatos, e que durante anos assistiu “brancos” e “colorados” se alternando no poder, vê agora, a esquerda cair nas graças da sociedade uruguaia, confirmando nas urnas o voto pelas mudanças.
São governos que melhoraram a vida do povo e souberam se comunicar. As pessoas reconhecem o que fizeram. Não é diferente no Brasil. O sentimento é o mesmo. O que vejo de diferente no Uruguai em relação ao Brasil, é que a Frente Ampla é a grande referência do povo. Não há o personalismo, nem em relação a Tabaré como também em relação a Mujica. Por incrível que pareça, Mujica não era o candidato de Tabaré, e chegaram a ficar 3 meses sem se falar. No entanto, esse desencontro não impediu que os uruguaios, na hora do voto, se identificassem com o projeto que trouxe trabalho, cidadania e esperança.
Nenhum comentário:
Postar um comentário