quarta-feira, dezembro 14, 2016

Jango, vice como Temer.

Ontem acabei fazendo o que menos gosto: ir ao centro em dezembro. Com a proximidade do Natal, as dificuldades se ampliam. Até chegar e estacionar só com uma boa dose de paciência: digna de monges tibetanos. O motivo que me levou à estressante empreitada foi João Goulart. Para os que não se lembram, assim como Temer, Jango também foi vice- presidente da República. Reconheço ser uma proposital guinada ao passado, mas como vão ver a seguir - com a melhor da intenções e de olho no futuro.

Jango chegou no Uruguai para seu exílio em 4 de abril de 1964.  Morreu em 6 de dezembro de 1976 em Mercedes, sem que lhe dessem o direito de poder voltar ao Brasil. Quem conta essa história é seu filho, João Vicente, que passou por aqui na Ilha e me fez ir ao centro.

Autor do livro "Jango e Eu, memórias de um exílio sem volta" lançado ontem em Florianópolis, conta a passagem sofrida de uma família exilada e de um pai amoroso. Seus dois filhos, João Vicente e Denize,  ainda crianças, relembram que mesmo na tristeza do exilio Jango foi um pai exemplar.

O livro vou ler no final de semana. Já o comentário que ora faço, tem muito mais a ver com Jango do que com as memórias do seu filho.

Jango foi afastado sem ter feito nada de errado. Não tramou para virar presidente. Não se envolveu com empreiteiras. Não constrangeu os Poderes. Não misturou o público com o privado. Não cooptou políticos, empresários e banqueiros. Não perdeu o controle da inflação, do emprego e das taxas de juros. E nem retirou direito dos trabalhadores. Muito pelo contrário, sua atenção sempre foi para as demandas dos mais necessitados.  Enfim, um vice como poucos que - legitimamente - virou presidente. Quando afastado tinha 80% de aceitação popular.

Alguns historiadores e militantes cobram que Jango deveria ter lutado pela presidência contra os que o afastaram do cargo e do Brasil. Não sei se seu filho toca nesse assunto no livro.  Jango era do bem: nunca quis que brasileiros se enfrentassem pondo em risco o país. Diferentemente do que ocorre hoje com a internet virando uma arma poderosa capaz de inundar as redes sociais com falsas notícias, alimentando ódios e preconceitos.

Talvez um dia a história reconheça o papel de Jango num dos momentos mais críticos que o Brasil já passou: o golpe militar. Sem titubear, Jango optou pelo exílio em vez de uma luta sangrenta. Para conforto de seus filhos, diante do que estamos vivenciando, até acho que o tempo do reconhecimento está cada vez mais perto.

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