terça-feira, janeiro 05, 2010

"L'etat demantele"

O ano de 2009 foi a ano da França no Brasil. Uma série de acordos, atividades culturais, boas relações presidenciais, aproximaram nossos países a tal ponto que o principal jornal francês, o Le Monde, homenageou o presidente Lula como o personagem do ano. Outros importantes jornais já tinham também referenciado o nosso presidente, mas o Le Monde é diferente. Um jornal de grande tradição, com um Conselho Editorial rigoroso, deve ter suas razões para identificar no presidente do Brasil atributos que tenham levado a tamanha honraria.

Na edição especial do Le Monde Diplomatique de dezembro, sobre as relações econômicas e políticas no ano da França no Brasil, selecionei alguns artigos que irei socializar e comentar com vocês durante essa semana. O primeiro artigo, oportuno em razão da crise global que atravessamos, é de autoria de Laurent Bonelli e Willy Pelletier. Trata de um resumo de uma discussão intitulada “L’etat demantele”.

Os autores mostram uma fotografia preocupante do Estado francês, literalmente, desmantelado. Para eles, a redução do estado pode ser percebida de maneira particularmente radical na revisão geral de políticas lançada em 20 de junho de 2007. A reforma atingiu todos os setores. Desde o sistema judiciário até a educação. Até o final de 2010, 178 tribunais de instâncias e 23 tribunais superiores serão eliminados em nome da “eficiência”. O Ministério da Educação está fechando colégios com menos de 200 alunos, considerados muito custosos. Só na área do ensino, a reforma irá eliminar mais de 15 mil cargos de professores, segundo Claude Allègre, ex-ministro da pasta.

O desmonte do Estado é geral. No Ministério do Interior, responsável pelo apoio as prefeituras e subprefeituras, a torneira fechou, submetendo os prefeitos a uma cruel “dieta”. O Ministério da Defesa também seguiu a mesma tendência: fechando quartéis e eliminando 45 mil empregos até 2014. As empresas públicas francesas, conhecidas mundialmente, como a Gaz de France, a Eletricité de France e a Société Nationale dês Chemins, estão ameaçadas de serem privatizadas. A Lei Liberdade e Responsabilidade é outra ameaça que paira sobre as universidades públicas francesas. As chamadas Agências Regionais de Saúde (ARS), responsáveis por toda a rede de saúde em nível regional, tiveram suas chefias preenchidas pelos chamados “prefeito sanitário”, cujos salários são definidos conforme “os resultados”.

O significado de seu trabalho (e de si mesmo com relação ao autodesempenho) entra em contradição com os novos critérios de avaliação. Cotidianamente, o exercício da profissão se torna uma missão impossível. O esgotamento profissional que se segue é incompatível com as diversas formas de “gerenciamento de objetivos”. Como resultado aumentou as taxas de suicídios ou tentativas, feitas por doenças e uso psicotrópicos. “Chegamos todos os dias ao trabalho já em contagem regressiva para sair. A conversa entre os colegas é sempre sobre quanto tempo resta para se aposentar”, afirma Pierre Le Goas, do Serviço de Impostos sobre Pessoas Físicas.

Os franceses protestam. Juízes, advogados, professores e funcionários públicos estão mobilizados. Cerca de 50 mil assalariados do Pôle Emploi entraram em greve em outubro de 2009. Em 2010 é um ano onde são esperadas inúmeras manifestações. Não sei se Sarkozy conversa com Lula sobre sua política interna. Seria bom ouvi-lo. Já comentei anteriormente que o Brasil saiu da crise em função do triunfo do Estado gestor. Quando precisamos de crédito para movimentar nossa economia foram os bancos públicos que fizeram sua parte. As funções de Estado estão preservadas no Brasil. Concursos públicos fazem parte do dia a dia do brasileiro. Novas escolas técnicas e universidades estão sendo criadas. Empresas públicas saíram da lista das privatizações, recuperam suas funções e retomam seus investimentos. Todo esse esforço e essa superação, com certeza, foram observados pelo jornal francês quando escolheu Lula como o Homem do Ano.

Isso que a foto do Presidente carregando um isopor na cabeça, ainda não tinha sido publicada. Quando eu vi o presidente Lula, na praia, carregando seu próprio isopor, logo pensei: é a foto do ano. No outro dia estava em todos os jornais. Não há nada no verão que se identifique mais com o brasileiro que um isopor na praia. Vamos aguardar a próxima pesquisa. A popularidade do presidente Lula deve ter subido mais um pouco. Agora, imaginem a mesma cena com o Serra ou com a Dilma ? ? ? ?

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