Na década de oitenta o jovem cantor e compositor Belchior, lá do interior do Ceará, a todos encanta ao registrar em verso que era "apenas um rapaz latino-americano". Num outro momento, uma de suas canções "Como nossos pais", na voz de Elis Regina vira unanimidade nacional. Era quase um hino para nós, jovens daquela época. Depois de uma passagem marcante pelo mundo da música, Belchior some dos palcos.
O registro que ora faço se deve, em parte, ao jornal Metro de distribuição gratuita nas ruas de Porto Alegre. A vontade de escrever veio através da leitura das "Crônicas de botequim, de Rubem Penz. Seu texto sobre Belchior, Elis e as aflições atuais, me fez refletir sobre o legado de Belchior. Quando descreve como foi marcante ouvir pela primeira vez Elis cantando "nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências, as aparências não enganam, não", Rubem Penz faz um relato com a alma sobre o papel importante de Belchior na nossa jovem e frágil democracia.
Ao identificar um fragmento quase profético sobre a necessidade da democracia ser um instrumento de transformação, capaz de atenuar a desigualdade social, Rubem aproxima Belchior dos desencantos e desencontros de hoje. Diante dessa precisa percepção, me arrisco a dizer: Belchior estava décadas na frente do seu tempo.
Não se sabe direito as razões que o levaram a uma auto reclusão no Uruguai e mais recentemente em Santa Cruz do Sul, onde veio a falecer. Se optou por se esconder incomodado com uma sociedade adoentada, ou se buscou no silencio da reclusão a paz que lhe faltava para conviver num mundo tão distante dos seus sonhos.
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