Foto: Reprodução/Twitter
O Chile depois de uma dura e sangrenta ditadura, vem convivendo com um longo período de inquietação popular. Muito em função de feridas abertas e de uma desigualdade social crescente. A previdência privada foi um engodo e as aposentadorias minguaram no tempo. As manifestações são quase que diárias. A própria Michelle Bachelet, principal nome da esquerda chilena, passou por isso e teve que enfrentar estudantes nas ruas. (*)
Para o atual governo do ultra liberal Sebástian Piñera, nenhuma novidade. O povo já vem protestando há mais de um ano. O estopim foi a alta da tarifa do metrô de Santiago, no ano passado. Piñera para não ser derrubado pelos chilenos; trocou ministros, reviu aposentadorias e prometeu submeter a um plebiscito a Constituição em vigor. No domingo, 25, veio a resposta das urnas: a aprovação de uma nova Constituição!
O plebiscito nacional, em plena pandemia, num país onde o voto não é obrigatório, levou uma multidão às urnas. O resultado não poderia ter sido mais expressivo, 78% votaram a favor de uma nova Constituição. As regras constitucionais eram da época da ditadura e davam muitos poderes aos militares. Para Ricardo Lagos, primeiro presidente socialista depois da ditadura que derrubou Allende, um dia histórico para os chilenos: votaram em paz, com alegria, entusiasmo e respeito. (**)
Aqui o líder do governo Bolsonaro na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP/PR), resolveu pegar uma carona propondo um plebiscito para rever a nossa Carta Magna. Não deu outra, foi bombardeado por todos. Para justificar seu desserviço ao país, alegou que a nossa Constituição só fala de direitos e não de obrigações. (***)
(*) O sistema previdenciário chileno é uma fraude. Liberou o Estado das obrigações que tinha com os idosos. Algo semelhante ao que o Guedes queria implantar aqui.
(**) Nada se iguala a vontade popular. É ela que dá vida aos regimes democráticos. Vide o caso Belarus: o povo está nas ruas contra o resultado de uma eleição que impediu a participação do líder da oposição (qualquer semelhança é pura coincidência);
(***) A nossa Constituição é de 5 de outubro de 1988, portanto, pós ditadura. Foi uma longa disputa política travada no Congresso Nacional. Um marco histórico na nossa jovem democracia. O líder do governo Bolsonaro, Ricardo Barros (PP/PR), sabe muito bem o que se passou no Chile e aqui.
PS - Ricardo Barros, o novo líder do governo Bolsonaro, foi meu colega. Já serviu aos governos FHC, Lula e Dilma. Não me lembro de propor muita coisa. Agora, por servilismo ou oportunismo, quer uma nova Constituição. "É isso daí"...

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