O último comentário que fiz sobre política, propositalmente, foi antes do resultado das urnas. De quarentena e com a curiosidade aguçada, li e ouvi de tudo. Os resultados ainda não tinham sido assimilados, mas os analistas já estavam focados em 2022. O Brasil é um país único. O voto é obrigatório, mas as abstenções, brancos e nulos: costumam ganhar de qualquer candidato. Como nos três casos o posicionamento do eleitor está associado ao desencanto do cidadão com a política, pouco se fala sobre isso. (*)
Com mais de trinta partidos e um presidente eleito sem partido, não há muito que fazer. Sem qualquer preocupação com o já fragilizado quadro partidário, Bolsonaro tenta criar um novo partido. Só que nem isso consegue. Como consequência, viu seus candidatos sucumbiram nas urnas. O caso mais comentado foi o do atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella. O carioca deu o troco no presidente, justamente no seu maior reduto político.
Quando o governo se isola, como agora, o descarte é uma questão de tempo. Para alimentar o bom debate e provocar uma reflexão coletiva tão necessária para responder o que se espera do Brasil, fui atrás do que os outros estão comentando sobre isso. O país se arrasta e os desafios são muitos, ninguém sabe o que vai acontecer em 2021, mas só se fala em 2022.
ACM Neto, 41, presidente nacional do PFL: "A tal nova política ficou velha muito rápido". Quanto aos pedidos de impeachment na gaveta do Rodrigo Maia, nenhum comentário. Alguém tem que avisar que engavetar é coisa antiga, da época do seu avô.
Mike Lofgen, autor do livro "The Party is Over", afirma que o verdadeiro governo é oculto. E quando o governante de plantão não entende as regras, é descartado por seus próprios pares. Sua mais recente publicação "Por trás da Casa Branca o Estado Profundo", trata disso. Mike conhece como poucos o poder nos EUA, foi assessor dos republicanos no senado por 28 anos.
Wilson Cid, jornalista - Os partidos estão exaustos, ocupados em interesses imediatos e disputas domésticas. Preferem passar à margem dos problemas urgentes da sociedade.(**)
Sérgio Rodrigues, escritor - Sem amigos nem planos, terminamos 2020 com o mico na mão. O mico em questão é aquele que o dicionário Aurélio define como "situação embaraçosa ou vexatória".
Vinicius Torres Freire, mestre em administração pública pela Universidade de Harvard - Sabe-se lá o que vai ser em 2021. Bolsonaro, confinado na incompetência, vai ficar refém de um Congresso parado por disputa política e de um governo sem rumo.
(*) A infidelidade partidária cresce a cada ano: 1 entre cada 3 prefeitos eleitos trocou de partido neste ano. Pasmem, dois mil prefeitos eleitos se filiaram em 2020. Sem vida partidária e história para contar - viraram prefeitos. Depois não dá certo ...
(**) Em 2021, 275 bilhões de reais do auxílio emergencial vão deixar de circular na economia. A miséria vai se agravar, num momento que o vírus está se alastrando e a economia se arrastando. Até agora, o que se apresenta como prioridade: é a presidência da Câmara e do Senado. Todos de olho em 2022.
PS - Morreu ontem, dia 6, em Montevidéu, Tabaré Vásquez, com 80 anos. Médico oncologista, foi duas vezes presidente do Uruguai. Juntamente com Pepe Mujica foi um dos principais avalistas da recém criada Frente Ampla. Foi o primeiro candidato da Frente a se tornar prefeito de Montevidéu em 1989. Em 2005, se elegeu presidente do Uruguai quebrando a hegemonia de Brancos e Colorados. Uma campanha movida por civilidade e emoção. Como membro do Parlamento do Mercosul, fui indicado pelo Congresso Nacional para ser observador oficial do processo eleitoral no Uruguai. Durante as comemorações que tomaram conta do país, tive o privilégio de conhecer o presidente Tabaré, um vencedor que soube unir os uruguaios. Aliás, foi assim que atual presidente, Lacalle Pou, da oposição, se manifestou: "Tabaré foi o presidente dos uruguaios".
Um comentário:
Infelizmente não há boas perspectivas para 2021. Que tempos!?
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