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quinta-feira, janeiro 07, 2010

A vida em primeiro lugar

Riccardo Petrella é professor de ecologia humana da Academia de Arquitetura da Suíça, e professor emérito da cadeira de globalização da Universidade Católica da Bélgica. Nos eventos e palestras que participa ou nos artigos e estudos que publica, têm sido incisivo na necessidade dos países industrializados de reduzirem suas emissões de gases de efeito estufa. “Life first”, é sua mensagem. Fazer com que as pessoas compreendam que “a vida está em primeiro lugar”, não é uma tarefa fácil. O que aparentemente deveria ser algo natural encontra enormes barreiras na própria sociedade, acostumada a um modelo de produção e consumo que é uma ameaça a própria vida.

Será que as pessoas querem realmente mudar? Será que a famosa frase de George Bush, pai- “O modo de vida americano não é negociável”-, pronunciada para justificar sua recusa de participar do ECO-92, no Rio de Janeiro, não representa o pensamento da maioria do povo americano? Será que o fato dos Estados Unidos não ter assinado o Tratado de Kyoto, enquanto 184 países o fizeram, não é uma forma de preservar o modo de vida do povo americano? Será que agora em Copenhague o presidente Obama não teria condições de defender posições que encorajassem outros países a avançar num acordo climático global? E se tivesse por que não o fez?

Para o professor Petrella as lições que devem ser tiradas de Copenhague estão justamente na identificação das grandes barreiras que os países industrializados impõem as mudanças. A não aprovação em tempo hábil, pelo Senado americano, da lei sobre o clima, foi o golpe de misericórdia. As classes dirigentes reduziram a questão do futuro da humanidade a um problema de gestão “economicamente eficiente” dos recursos naturais, comenta Petrella. Eles entregaram aos mecanismos de mercado a tarefa de programar e avaliar essa gestão. Em decorrência disso, é impossível alcançar um verdadeiro acordo político mundial em torno da vida no planeta.

Essa mercantilização do ar e do clima deu à luz a inumeráveis instrumentos financeiros. Os Estados se limitam a facilitar a promoção e o bom funcionamento desses instrumentos seguindo a lógica do mercado, comprando e vendendo créditos de carbono. O que se espera, é romper com a estratégia do mercado, introduzindo duas medidas prioritárias: a mudança das regras do direito de propriedade intelectual e um plano financeiro público mundial. A primeira é determinante no caso das energias renováveis, transferindo conhecimento e tecnologia para os países em desenvolvimento. E a segunda medida tira das mãos do mercado as decisões globais, podendo reorientar enormes recursos para um novo modelo de desenvolvimento que considere “a vida em primeiro lugar”.

Estas propostas de mudanças independem do que acorreu em Copenhague. Os EUA fizeram sua opção: “American First”. Entretanto, existem condições reais de superar esse impasse, comenta o professor Petrella. Bastam alguns países da Europa Ocidental e da América Latina, e até mesmo da África, começarem a discutir e elaborar um projeto que dê vazão a esse sentimento forte por transformações. A história mostra que toda a vez que um grupo de nações tomou a decisão de prosseguir no caminho reconhecido como justo e oportuno para o interesse geral, os outros países se juntaram. Nessa questão climática, ninguém quer ficar de fora e ser cobrado pela história.

Estamos totalmente de acordo com o professor Riccardo Petrella escreveu, tanto assim que aproveitamos para socializar no blog parte do seu artigo publicado no Le Monde Diplomatique. E vamos continuar fazendo a nossa parte. Dia 19 de março, o Instituto IDEAL estará promovendo o seminário: “O MERCOSUL pós Copenhague”, justamente com o intuito de debater e propor a continuidade dessa luta junto aos países vizinhos. A América Latina só tem a ganhar com a implantação de um novo modelo de desenvolvimento. Pelo potencial natural que tem, pela criação de milhares de empregos verdes, por uma matriz energética limpa e como política de integração regional.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Copenhague: li e gostei.

"O dia que tudo mudou em Copenhague", texto de Saleemul Huq, merece ser lido. Não só por ter sido escrito por um Prêmio Nobel, como também por ser uma oportuna e ponderada reflexão sobre Copenhague.

Boa leitura.


Trabalhei em temas de mudança climática por muitos anos, primeiro como pesquisador em minha Bangladesh natal e depois no Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, e como membro do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática. Vi com meus próprios olhos as ameaças que representam a mudança climática nas regiões secas da África, nas montanhas do Himalaia e nos vastos deltas baixos da Ásia. Testemunhei anos de falta de ação nas cúpulas da Organização das Nações Unidas, que não deram a resposta necessária porque os negociadores escolheram proteger estreitos interesses nacionais e econômicos em lugar de assumir o desafio de proteger as gerações futuras.
Discuti com os que negam a mudança climática e têm fortes vínculos com indústrias poluentes, e que nunca estiveram nas aldeias e comunidades vulneráveis, onde a mudança climática já mostra seus impactos. Se o fizessem, notariam o dano que sua ideologia causa nas pessoas que menos contribuíram com esta ameaça mundial. E agora, em dezembro de 2009, em Copenhague, creio que chegamos a um ponto de inflexão. Copenhague será lembrada nos próximos anos. Não pelo que ocorrer hoje, quando os líderes mundiais encerrarem a 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP15), mas pelo que ocorreu no sábado passado.
Naquele dia, gente dos mais diversos estilos de vida de todo o mundo assumiu a iniciativa que deveria ser ostentada pelos que se dizem nossos líderes. Além das palavras que estes presidentes e primeiros-ministros decidirem incluir em um “protocolo” ou “acordo”, é o povo do mundo que tem de escrever no muro. Os líderes que decidirem ler essas palavras nos farão avançar. Aqueles que as ignorarem serão arrastados pela maré da história. O dia 12 deste mês assinala o momento em que grande parte do mundo se levantou para executar uma mudança verdadeiramente global. Haverá retrocessos (como um acordo medíocre esta semana), mas a maré já se movimentou. E não pode voltar atrás.
Mais além do que conseguirmos em Copenhague - e sou otimista, apesar das manobras políticas - estamos em um caminho novo e inexorável. Os líderes que compreenderem isso podem proceder dos lugares mais inesperados. Vejamos, por exemplo, o presidente Mohammad Nasheed, da diminuta Maldivas.
Em poucos meses voltarei a Bangladesh para combater a mudança climática real, para opor-me às más (ou inadequadas) políticas que a abordam. Minha ambição para os próximos anos é ajudar a população de um dos países mais pobres e vulneráveis - e, entretanto, mais resiliente e inovadora - para que deixe de ser o emblema mundial de vulnerabilidade e passe a ser reconhecido como, talvez, o que melhor se adapta.
Volto à minha pátria para criar um novo Centro Internacional para a Mudança Climática e o Desenvolvimento, no qual aspiramos aprofundar a capacidade de governos, organizações da sociedade civil, pesquisadores, acadêmicos, jornalistas e muitos outros atores das nações em desenvolvimento para responder aos desafios que a mudança climática apresenta. O novo centro oferecerá capacitação sobre como sobreviver (e inclusive prosperar) em um mundo aquecido. Focará principalmente na adaptação à mudança climática nas nações menos adiantadas, mas não se deterá nisso.
Na verdade, planejamos criar instrumentos para que os países industrializados possam enfrentar impactos climáticos adversos. Paradoxalmente, o mundo rico que causou este problema não planejou em detalhe com adaptar-se a ele. Volto à frente de combate à mudança climática, onde a luta real já está em marcha. Vou sabendo que milhões de pessoas de todo o mundo compartilham minhas esperanças e meu otimismo quanto a que a humanidade pode unir-se para enfrentar o desafio que pode determinar nossa vida sobre a Terra.

* Saleemul Huq é membro do Instituto Internacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento e autor principal dos informes do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2007.

Algumas outras declarações pos-Copenhague:

Thom Yorke, líder do grupo britânico Radio head, ativista militante das causas ambientais: " os líderes que se apresentaram em Copenhague são homens reprimidos de meia idade, que enxergam através das suas próprias esferas de interesses particulares, e não veem o processo como todo".

O presidente da França, Nicolas Sarkosy: "A Conferência de Copenhague não pode consistir em uma sucessão de discursos que não se confrontam nunca. Não estamos aqui para um colóquio sobre o aquecimento climático, estamos aqui para tomar decisões".

O presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva: "O mundo não chegará a um acordo climático com meias palavras e barganhas....".

O presidente dos EUA, Barack Obama: " ..... ....... .............. ... ............... .............................".

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Copenhague: impasses e desorganização

O que ninguém queria é o que começa ser noticiado sobre o encontro de Copenhague: impasses nas negociações e desorganização. A informação de que a presidente da cúpula, Connie Hedegaard, se afastou hoje da coordenação confirma o que já vinha sendo objeto de crítica, a desorganização do evento. Foram liberadas 35 mil credenciais para um espaço físico que comporta 10 mil pessoas. Filas intermináveis, dificuldades de locomoção, constrangimentos a autoridades e outras falhas organizativas, prejudicam o evento e podem ter sido a causa do afastamento de Connie Hedegaard. Por outro lado, o tempo passa e os entendimentos não acontecem. Embora todos se comprometam com o clima, o clima em Copenhague não é dos melhores. Além do frio( já esperado), das manifestações e protestos( também esperado), ministros de um mesmo país não se acertam e declarações contraditórias atrapalham a busca do entendimento e do consenso. Faltam poucos dias. Muita gente, por esse mundo afora, espera por compromissos e respostas.

Enquanto isso, longe de lá, no Brasil, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) prevê a criação de pelo menos 20 milhões de empregos verdes até 2030 em todo o mundo. Segundo o relatório da OIT, no Brasil, os empregos verdes deverão ser o segundo maior setor do país em ocupação de mão de obra especializada. São consideradas atividades verdes a produção e o manejo florestal, geração e distribuição de energias renováveis, saneamento, gestão de resíduos, projetos sustentáveis e outros. Dentre esses outros está o cultivo de cana de açucar, um dos maiores empregadores do setor agrícola brasileiro. Nesse segmento é esperada uma forte redução do número de empregos em razão de que nos próximos três anos 90% da colheita serão feitos de forma mecanizada. Parte dessa mão de obra será deslocada para outros setores que serão estimulados pelo próprio governo de criarem empregos verdes.

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Em Copenhague, a incerteza. Aqui boas notícias.

Em Copenhague, a semana começa com a chegada dos ministros e líderes mundiais. O mundo espera que o bom senso e a responsabilidade com o planeta prevaleçam. Um acordo que defina novos padrões de desenvolvimento, onde sustentabilidade, energia limpa e empregos verdes sejam a tônica das próximas décadas, é o que todos esperamos.
Enquanto isso, distante de lá, num país chamado Brasil, com muito sol e vento, a semana começa com duas excelentes notícias. Hoje acontece o primeiro leilão de usinas eólicas. Foram habilitados 339 projetos, totalizando 10.000 MW. Quase uma Itaipu. A maioria dos projetos previstos estão localizados na região nordeste e no Rio Grande do Sul. Dependendo do resultado do leilão, o Brasil entrará no rol dos países com forte presença dessa nova fonte de energia limpa, como China, Espanha, EUA, Alemanha, Dinamarca, Índia e Portugal. Com isso, cria-se o mercado estabelecendo no país um novo segmento industrial.
Para Steve Sawyer, secretário-geral do Conselho Global de Energia Eólica, o mercado brasileiro, com o leilão, deixou de ser uma promessa, para se tornar em algo real e promissor. Ele compara o Brasil com a China de 2004 e a Índia de 1998. A China, por exemplo, em cinco anos passou a liderar a implantação de parques eólicos no mundo.
Mas as boas notícias, não estão apenas relacionadas com os “bons ventos”. Em Salvador, a Coelba, empresa de energia de lá, juntamente com o Governador Jaques Wagner, anunciaram a solarização do Estádio Pituaçu. Foram meses de tratativas junto a Aneel até a aprovação do projeto. A Universidade Federal de Santa Catarina e o Instituto IDEAL estiveram presentes em todos os momentos dessa importante iniciativa. Aliás, tudo começou em abril desse ano quando estivemos vistando os estádios solares na Alemanha e Suíça. O Pituaçu, embora não sendo um dos estádios da Copa, vai servir de modelo e de aprendizagem para os demais. A Bahia, que já foi porta de entrada dos primeiros colonizadores, agora se apresenta como porta de entrada da energia solar no nosso continente. Estamos todos de parabéns. Como dizia um bom baiano, Raul Seixas: sonho que sonha junto é realidade.

sábado, dezembro 12, 2009

Fundo Amazônia

A redução do desmatamento, a produção da conservação e do manejo sustentável das florestas são oportunidades claras de se obter benefícios climáticos imediatos. Portanto, a preservação da maior floresta tropical do planeta é imprescindível à sobrevivência da espécie humana.
A Floresta Amazônica tem uma extensão aproximada de 5,5 milhões de km2, sendo cerca de 60% em território brasileiro. Ela abriga 33% das florestas tropicais do mundo e cerca de 30% das espécies conhecidas da flora e da fauna. A cada ano, ela libera para a atmosfera - por meio da evaporação e da transpiração da vegetação - mais de sete trilhões de toneladas de água.
Como forma de obter recursos para incentivar a preservação da floresta, foi criado, em 1º de Agosto de 2008, o FUNDO AMAZÔNIA. O objetivo central é promover projetos para a prevenção e o combate ao desmatamento e também para a conservação e o uso sustentável das florestas no bioma amazônico.
A gestão do Fundo cabe ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os recursos do FUNDO AMAZÔNIA serão aplicados sob a forma de financiamentos não reembolsáveis. O BNDES apresentou o projeto na quarta-feira, na COP 15, em Copenhague, na Dinamarca. Por coincidência, boa parte dos recursos da Fundo Amazônia vem da vizinha Noruega. (Fonte: Ambiente Brasil - Especial de Copenhague)

Ainda sobre o Fundo - O Instituto IDEAL está estudando a possibilidade de incluir entre os projetos financiados pelo Fundo a "solarização da Amazônia", através de pequenas usinas solares, em regiões onde a energia elétrica ainda não chegou e dificilmente irá chegar.

E SOBRE A MENTIRA - voce encontra no blog do César Valente (www.deolhonacapital.com.br), o poema de Afonso Romano sobre a mentira. Segue abaixo um pequeno trecho para despertar seu interesse.

"E de tanto mentir tão brava/mente constroem um país de mentira diaria/mente"
"Mentem no passado. E no presente passam a mentira a limpo. E no futuro mentem novamente".

Como voce pode ver, atual e aplicável: tanto para falsos ambientalistas como para inúmeros políticos.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Copenhague: seguridade energética e cambio climático.

Estamos a poucos dias do encontro sobre clima em Copenhague. Por mais que queiram reduzir a importância desse encontro, a expectativa é grande. Líderes dos principais países vão estar lá. A opinião pública mundial, em cada canto desse Planeta Terra, mesmo a quilômetros de distancia, também estará de olho lá. E eles sabem disso! Portanto, não tratar mudanças climáticas com responsabilidade será cobrado por toda a humanidade.

O último documento público do G-20 sobre seguridade energética e cambio climático, se cumprido por todos, já é um bom começo. Ao afirmar que o acesso a fontes de energia diversas, acessíveis e limpas é fundamental para o crescimento sustentável, os países se comprometem com mudanças. Melhorar a eficiência energética, por exemplo, deve ter um papel importante nas próximas décadas. Com os preços crescentes dos combustíveis fósseis, a tendência é acabar com os subsídios que alguns países insistem em manter. Dessa forma, combate-se o desperdício no consumo e cria-se a cultura da eficiência energética.

Em paralelo, o documento propõe medidas objetivas de estímulo a investimentos, promoção e transferência de tecnologia em energia limpa. Com o aumento da oferta mundial de energias renováveis, promove-se um crescimento sustentável e ameniza-se o efeito perverso das mudanças climáticas.

Com isso os líderes do G-20 respondem para o mundo a vontade de se comprometerem com o futuro. Eles sabem que a recuperação econômica para ser duradora precisa incorporar o novo, e o novo está na sustentabilidade, nos carros elétricos, na energia solar e nos empregos verdes. Eles vão buscar em Copenhague um acordo que contemple medidas de mitigação, transferência tecnológica e financiamentos de seus projetos futuristas que irão sinalizar para um novo modelo de desenvolvimento.