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domingo, junho 18, 2023

Mau-caratismo, uma praga

                                                            Largo da Catedral/Floripa            
             A saída está nos jovens, nas ruas e nos movimentos que brotam numa sociedade plural

A potencialidade do Brasil e sua importância no cenário mundial ficaram evidentes nos primeiros seis meses do governo Lula. A visita de Ursula Von der Leyen, dia 12, ao presidente Lula, só confirma: estamos de novo bem na foto. No entanto, na mesma semana, um mega escândalo, tamanho king size "três g", envolvendo a privatização da Eletrobras, não teve o devido destaque pela mídia como deveria ter tido. Pela gravidade do ocorrido seria o assunto da semana em qualquer outro país. A nossa realidade, infelizmente, é outra: quando o assunto envolve bilhões as portas se fecham. (*) 

O que está acontecendo no nosso país é o crescimento da esperteza, advinda do mau-caratismo. Quando esse grave desvio de comportamento se alastra pelo país, contaminando todos os Poderes da República, Executivo, Legislativo e Judiciário, chegando nas relações empresariais privadas e até mesmo no futebol, a praga tem que ser combatida. Sem a devida reação da sociedade, tudo fica mais difícil e o futuro como nação ameaçado. (**)

Para situar o problema, vamos aos fatos da semana: o que se observa é a promiscuidade entre interesses públicos e privados envolvendo a privatização da Eletrobras. Qualquer cidadão minimamente atento e consciente percebe no ar a safadeza em curso. Aliás, pelo que vem sendo apurado, a imoralidade está presente nos arranjos entre o presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Jr, com grupos privados. Tudo combinado, saiu da presidência da Eletrobras para presidir a "Nova Eletrobras". Sobre isso já falamos várias vezes. (***)

Outro caso recente envolvendo o Poder Executivo, ocorreu aqui em Santa Catarina. Um fato inédito no Brasil, desde janeiro dezessete prefeitos estão presos. O motivo de estarem na cadeia é o mesmo, corrupção com a coleta do lixo nas suas respectivas cidades. Por coincidência são parceiros no crime e na política. Como boa parte deles governavam pequenas cidades, onde todos se conhecem, o malfeito entra nas escolas, no posto de saúde e na casa das pessoas. Um péssimo exemplo que dão, principalmente para as crianças.

No Poder Judiciário depois das apurações envolvendo a Lava Jato, que transformaram a República de Curitiba numa "republiqueta", com graves denúncias envolvendo e comprometendo os expoentes da operação, o mau-caratismo aflorou de vez. Os delatores pressionados, sentenças suspeitas, procuradores afastados, juízes e desembargadores sob observação. Uma confusão que não tem fim, agravada pelas declarações de Tony Garcia e em breve com os depoimentos de Tacla Duran. (****)

Quanto ao Poder Legislativo Federal, por tudo que acontece em Brasília, acaba sendo o mais exposto. As famosas Emendas Parlamentares favorecem o mau-caratismo. Os recursos disponibilizados ficam sob a tutela do parlamentar, que tem o poder da liberação da verba. Com a Emenda do Relator, uma novidade introduzida pelo Centrão de Arthur Lira, tudo ficou mais facilitado. O deputado tem a faca e o queijo na mão, contra si só a consciência.

Por falar em consciência, na última quarta-feira, 14, a Câmara dos Deputados, por ampla maioria, aprovou o projeto de lei da deputada Dani Cunha. Por ser filha do deputado cassado Eduardo Cunha, a repercussão foi imediata. O projeto por si só já é polêmico, ao tipificar como crime a discriminação de pessoas politicamente expostas. Ainda mais se sabendo que a iniciativa partiu da filha dele, uma deputada de primeiro mandato, que conseguiu regime de urgência na matéria, e ter seu projeto aprovado em apenas duas horas. Para quem conhece a Câmara esse rito é anormal. Como vai para o Senado, que é a Casa Revisora, vamos ver o que vai dar. Lamentável, mas estamos atentos.  #deolhonofuturo 

(*) O crime não compensa. Ele acaba aparecendo. Vide o caso das Lojas Americanas.  Um lucro fictício de 20 bilhões de reais, por enquanto. Foi assim com a Enron, na década de 90, nos EUA. Na época uma das maiores empresas de energia do mundo. Virou pó.

(**) Com as devidas exceções, as pessoas gostam de passar os outros para trás. Dizem que faz parte do nosso jeito de ser. Estudiosos da alma humana, já acham que é falta de caráter mesmo. As apurações do MP em Goiás, envolvendo jogadores de futebol ilustram bem o mau-caratismo dos envolvidos. Nem mesmo a paixão nacional foi poupada.

(***) O presidente da Eletrobras não trocou de cadeira. O que trocou foi o seu salário. Segundo o  Valor saiu de 50 mil e passou em março para 300 mil. Ao tomar conhecimento dos salários dos diretores da "nova Eletrobras" e da descabida remuneração dos conselheiros, o presidente Lula mandou apurar os arranjos societários feitos que prejudicaram diretamente a União.

(****) Tony Garcia, empresário influente, ex-deputado estadual, foi muito próximo de Moro. Tacla Duran, advogado da Odebrecht, por segurança vive na Espanha. É um arquivo vivo. 

                                                                         

 

    

segunda-feira, dezembro 12, 2022

INDIGNAI-VOS!

Depois de uma frustação, seja de que natureza for, sempre vale uma reflexão. Não sei se dá para generalizar essa prática, mas fica a sugestão. Eventos ocorridos na política, na Copa do Catar e agora o recente assédio sofrido pela vereadora Carla Ayres (PT) dentro da Câmara Municipal de Florianópolis, me fez reler o artigo que recebi do amigo e cineasta Zeca Pires. De autoria da professora da USP, Maria Luiza Tucci Carneiro, "O direito aos Direitos Humanos", nos ajuda a entender um pouco melhor nossa adoecida sociedade. (*)

Quantos desatinos vivenciamos nos quatros anos do atual governo. As armadilhas plantadas por mentes doentes, desqualificaram o bom debate e só serviram para nos dividir. Um país rico, sem orçamento, não consegue identificar e muito menos explicar suas prioridades. Se nega a falar com o mundo, com vergonha de não ter o que dizer. Sua obsessão por uma agenda que insiste no negacionismo, nos apequena como nação.  

No Catar, além de mais um fracasso da seleção, nos submeteram ao constrangimento de ver um vídeo onde aparece jogadores do Brasil comendo uma carne salpicada com ouro. Que vergonha: Ronaldo rindo, com a boca escancarada, cheia de dentes, recebendo como um glutão um naco de carne coberto de ouro. Se Ronaldo gosta da ostentação e pode pagar, o problema é dele. Agora os jogadores que estavam se deliciando com a fartura, não estavam ali de férias, representavam oficialmente o Brasil. 

Em Florianópolis, na quarta-feira, a vereadora Carla Ayres, do PT, foi assediada no Plenário da Câmara pelo vereador Marquinhos. O processo ético disciplinar para a cassação do mandato está protocolado. Como no final do ano tudo é mais difícil de acontecer, muita gente está mobilizada para pressionar à Câmara em apoio a vereadora. (**)

Nos três caso citados, o governo passado, a ostentação dos jogadores no Catar  e mais um caso de assédio as mulheres, causa indignação. A melhor definição para a indignação, segundo a professora Maria Luiza Tucci, veio através de Stéphane Hessel que, em 2021 mobilizou Madri com uma única palavra "INDIGNAI-VOS!". A palavra é forte, só que está esquecida entre nós. Para ajudar na reflexão, se indignar é um sentimento que brota nas pessoas que quando abrem os olhos veem o inaceitável. Portanto, é o inaceitável que gera espontaneamente a indignação. Segundo Stéphane, "Em nós há uma capacidade de generosidade, de ação positiva e construtiva que se pode despertar quando assistimos à violação dos valores". Pense nisso, já deve ter acontecido com você:  INDIGNE-SE!

(*) O artigo de Maria Luiza Tucci, publicado dia 9/12, no jornal da USP, está disponível no link: https://jornal.usp.br/articulistas/maria-luiza-tucci-carneiro/o-direito-aos-direitos-humanos/ 

(**) Carla Ayres é vereadora em Florianópolis e concorreu a deputada federal na última eleição. Bem votada ficou como suplente. O assédio sofrido teve repercussão nacional. 

PS- Numa cerimônia carregada de fortes emoções,  Lula é diplomado pela terceira vez presidente do Brasil.  Destacou que o povo brasileiro escolheu o amor em vez do ódio e a democracia em vez do arbítrio. Enquanto alguns poucos negam a democracia e pregam o golpe, o sufoco passou,  o país respira. DE ÚLTIMA HORA - segundo o novo ministro da Justiça, Flávio Dino, atos de terrorismo praticados durante a madrugada de terça-feira, em Brasília, como tal serão tratados e punidos com o rigor da Lei.   

domingo, junho 26, 2022

Um motivo para reflexão

 


            Em casa com minha filha Andréia - primavera de 2021          

Não costumo ser o motivo dos comentários que faço, até porque o que não falta é assunto. Duas semanas atrás fui surpreendido pelo Linkedln, principal rede de contatos do mundo empresarial, com 350 milhões de participantes, de que tinham me identificado para seis oportunidades de emprego. Como não estou atrás de nada, só posso atribuir a seleção a uma longa história de vida: coerente com os meus princípios, preocupações e motivações. 

Os cargos oferecidos, de alto nível, estavam em sintonia com o que venho fazendo dando portanto credibilidade ao processo de escolha. As oportunidades estão na área da energia solar, em assessoria institucional e consultoria em projetos sustentáveis. No momento atual com a crise do desemprego e de uma economia estagnada, um bom emprego é coisa rara.  

Logo após a boa notícia veio a necessidade de refletir um pouco sobre o ocorrido. Embora bastante demandado nas minhas funções, não me considero um profissional presente no mercado.  Num universo tão amplo de pessoas bem preparadas que circulam pela rede Linkedln, a explicação só pode estar nos temas que lido: cada vez mais atuais. 

A mensagem que fica desse inesperado episódio é estar disponível, de mente aberta e tendo o lado motivacional como prioridade nas suas escolhas. Suas limitações devem ser observadas, mas é você que as determina. Quantas vezes bate a insegurança em relação a nossa capacidade de enfrentar o desconhecido. Novamente a escolha é sua e ela faz parte do processo. Não se deve desistir de nada sem antes tentar. 

Em nenhum momento inclui nessa breve e despretensiosa reflexão - a idade - como um impedimento. Simplesmente porque não acho que seja. Meu pai faleceu com 82 anos, meu sogro com 94 e o pai dele com quase 100 anos. Só pararam de trabalhar quando a energia do corpo se foi. O que tinham em comum, os três gostavam do que faziam. 

Não existe uma regra para orientar o caminho e o tempo de cada um. A complexidade existencial é quase que individual. Talvez o que caiba é tirar alguns momentos do dia para saber se o que estamos fazendo é ético e prazeroso. Sempre há tempo para novas escolhas. Não se pode criar bloqueios que impeçam repensar a vida que levamos. Reconheço que escrever faz pensar e me sentir melhor. Quanto aos sonhos não realizados, não os abandone. Os meus estão todos por aí, quem sabe um dia se realizam...

 


sábado, dezembro 04, 2021

Descanse em paz, Franco

Jorge Tadeu Franco faleceu ontem, em Florianópolis. Nasceu em Cruz Alta, se criou em Porto Alegre e como muitos gaúchos escolheu Florianópolis para viver. Formou-se piloto, deu aula nesta área, trabalhou em fazendas no norte do Brasil e em companhias áreas como piloto comercial. 

Sempre se preocupou com os outros, mas pouco cuidou de si. Foi presidente da Ação da Cidadania Contra a Fome e a Miséria, e assim chegou ao meu gabinete em 2003. Como os outros amigos que me assessoraram Franco ficou até o final do mandato em 2007. 

Seus últimos meses de vida foram de muita dificuldade e sofrimento. A morte foi um descanso. Ontem a noite pensei muito nos bons momentos que tivemos e de quantos companheiros do mandato já se foram: Ana Beatriz, Ademir, João, Shirlei e agora o Franco.  Com exceção do João Widholzer, todos mais jovens do que eu. Espero que se encontrem onde estiverem. Imagino até sobre o que vão falar...

PS- Quando leio sobre o escândalo das "rachadinhas", me revolto. Homens públicos que deveriam dar o exemplo, se apropriando do salário dos seus assessores. Pela dimensão que o mal feito tomou devia ser um crime inafiançável. Durante 10 anos de mandato, atos escusos nunca foram praticados com verbas e salários  do gabinete. 

segunda-feira, agosto 23, 2021

O calote dos precatórios: mais uma iniciativa do governo Bolsonaro

Pouca gente sabe o que é precatório. Normalmente são advogados ou aquelas pessoas que aguardam por anos um pagamento que lhe é devido. Para quem não é advogado como eu, fui buscar no Google a explicação: "A palavra que atormenta o Ministério da Economia, precatório, significa dívida decorrente de decisão judicial. Trata-se de derrota do Executivo –União, Estado ou município– na Justiça, sem mais nenhuma chance de apelação nem de postergação. A ordem do Judiciário é clara: pague". 

O que o governo está tentando fazer, sem qualquer pudor, é empurrar a dívida já reconhecida e julgada para frente. Um desrespeito a centenas de milhares de pessoas que aguardam pelo pagamento dos precatórios. Fico imaginando o Galvão, no  intervalo de um jogo de futebol, perguntando isso pode Arnaldo? A resposta do juiz Arnaldo César Coelho, seria não: uma pedalada, cartão vermelho, impeachment já! 

Portanto, acordem! Querem fazer com os precatórios mais um acordo político voltado para as eleições de 2022. Quem aparece a frente da iniciativa é o Guedes. Joga para ver se cola, enquanto o chefe está de olho no apoio parlamentar que pode conseguir adiando o pagamento dessa dívida da União.  A grande parte do montante está relacionada aos aposentados. Um segmento tratado com descaso e empobrecido ao longo do tempo. O poder de compra das aposentadorias cai ano após ano. (*)

(*) Bolsonaro só se preocupa com a reeleição e manter os seguidores que ainda restam. Entre eles estão os militares reformados, com suas pensões em dia.  Sempre é bom lembrar do tratamento diferenciado que recebem. Só para exemplificar, o capitão Jair foi afastado do Exército por mal comportamento com 33 anos de idade. Agora se sabe que mesmo assim se aposentou  e recebe até hoje uma boa pensão. 

PS - Meu sogro era um que não se conformava com a aposentadoria que recebia. Durante toda a vida contribuiu com o máximo e se aposentou com o equivalente a cinco SM. Nunca desistiu do seu direito. Sempre tinha um advogado acompanhando a sua causa. Morreu sonhando com o esperado precatório. 



domingo, julho 11, 2021

Em meio ao caos refletir não faz mal a ninguém

Desde quando Dilma foi reeleita e o resultado não foi absorvido por seus adversários, a divisão da sociedade ficou mais evidente. Os conflitos cresceram e sem espaço para a reflexão, se chegou ao Brasil de hoje: um país  com o futuro ameaçado. Errar faz parte, mas não aprender com os erros é trágico.

Por acaso cometi um descuido na semana passada, que  quase acaba em tragédia. Por necessidade,  precisei ir correndo até a UFSC e me descuidei com o péssimo estado da calçada. Não deu outra, me esborrachei no chão. Até que tive sorte, podia ter sido bem pior. Espero ter aprendido com as calçadas mal cuidadas da vida. 

Com o joelho detonado, minha agenda na quarta-feira, 7, se modificou: de tarde assisti a CPI da Covid e a noite o jogo do Internacional. Duas programações que vinha evitando, a CPI virou um caso de polícia que vai do cabo ao general; e o Inter, de tão ruim que anda, tinha largado de mão. Assim como andar correndo, novamente veio o arrependimento por uma escolha errada.

Para superar um dia perdido, nada como uma boa reflexão. No meio de tanta frustração  veio a necessidade de conhecer melhor por onde ando. Como por exemplo, as redes sociais que estou inserido. As que mais me relaciono são: Economia e Política, de Alberto Carlos Almeida; Energia e Pobreza, ligada ao papa Francisco; Sustentar/2020; Mini/Microgeração de Energia; Força SUS; Linkedln; sem falar na que mantenho com os amigos. De todas, a que menos conheço é a Linkedln - a maior rede de relacionamento profissional do mundo. São milhões de pessoas,  na maioria jovens, atrás de uma melhor oportunidade de trabalho.

Pelo fato de não ser jovem e nem estar atrás de emprego, é que me veio a necessidade de saber o que estou fazendo ali. Sem dúvida cabe a reflexão. Quando entrei na rede a preocupação que tinha era de não me sentir integrado. Com o tempo comecei a perceber que os meus comentários eram bem acolhidos e que tinha muito a contribuir, mesmo sabendo que estava falando para um outro público.

Talvez esteja nesse encontro que tenho com os diferentes, a minha maior motivação. Observo semanalmente as pessoas que se conectam comigo como um sinal positivo que vai além de uma simples curiosidade. Segundo os próprios gestores do Linkedln, o meu perfil tem chamado a atenção com uma média de visualizações acima de 100 por semana. O que para eles é um excelente indicativo. A comunicação com conteúdo dá trabalho e te exige uma permanente reflexão sobre a vida.   

Na prática acompanhar o volume das demandas que chegam da política, redes sociais,  e-mails que recebo, somado às questões internas relacionadas ao Instituto IDEAL e a IESS; é um grande aprendizado. Para dar conta de tudo só muito motivado.  Ainda bem que me sinto assim. Agradeço por isso. (*)

(*) A IESS - IDEAL ESTUDOS E SOLUÇÕES SOLARES é uma ramificação do Instituto IDEAL que presta consultoria na área da energia solar fotovoltaica.      

  

  

quarta-feira, junho 16, 2021

Domingo no parque


Foto: Parque da Luz em Florianópolis (mauro passos)

Enquanto no sábado, motoqueiros comemoravam o Dia dos Namorados sem as namoradas e
as máscaras; em Florianópolis, famílias inteiras aproveitaram um domingo ensolarado para passear no Parque da Luz com todo o cuidado que a pandemia impõe. Que diferença de comportamento em relação aos que seguem cegamente quem prega o pior e desconsidera 492 mil mortes. Só que o desrespeito com o cargo não para aí, é diário. (*) 

Sem dúvida o Brasil não merecia passar por isso. Em dois anos viramos uma piada global. Um retrocesso até então - impensável! A desgastante rotina de uma pandemia prolongada é uma realidade que até então desconhecíamos. Se não fosse o SUS, a tragédia humana seria ainda maior. As consequências da loucura que estamos enfrentando estão bem diante dos nossos olhos: para muitos a dor dos que se foram, para outros a incerteza do que nos espera.

Segundo Henrique Rodrigues, professor de literatura e jornalista, "Diferentemente de outros países, o governo quer tirar o mínimo de proteção que a cidadania tem contra o inimigo mortal invisível. Pois é, a besta descontrolada quer marchar contra o óbvio. Um dia, quando o inferno se instalar noutro canto, todos vamos olhar as cicatrizes desses tempos satânicos e pensar: que inferno era aquilo, ainda bem que acabou."

(*) Quando um avião da comitiva presidencial foi retido na Espanha e o capitão envolvido com a cocaína preso, pouco se falou sobre o ocorrido. Na semana passada, o presidente do Brasil adentrou num avião da Azul, pronto para decolar, sem ser da tripulação e nem passageiro. Novamente pouco se sabe sobre o tumulto a bordo e as regras de segurança que não foram observadas. Entrar num avião comercial não é a mesma coisa que comer  pastel na padaria. A Lei é para todos!

PS - O Parque da Luz está lindo, até parece um parque londrino (foto acima).  O terreno que sobrou de um antigo cemitério, abandonado pelo poder público, se transformou na área central mais valorizada da capital. Florianópolis agradece a atitude de um grupo de pessoas que se envolveu na defesa do parque e a favor da cidade. Isso se chama: cidadania! 

domingo, junho 06, 2021

Affonso Alles, presente





     Foto -  Isabel Silveira (Parque da Luz, 5/6/2021)

O Parque da Luz se consolidou como um lugar de encontros, celebrações e despedidas. A própria história do parque é um pouco disso. No último sábado, dia 5, Dia Mundial do Meio Ambiente, na cabeceira da Ponte Hercílio Luz e no centro do parque vivenciamos bem isso. A despedida de Affonso Alles e a celebração pela passagem do Dia Mundial do Meio Ambiente.

Mirian com seu neto Victor, sob o olhar da filha Claudine e dos amigos mais próximos, foi quem espalhou no Parque da Luz as cinzas do seu eterno companheiro. O lugar não poderia ter sido outro. Além de ser vizinho do parque o casal sempre fez parte da luta  pela transformação daquela área pública no que temos hoje, um parque tomado de árvores no centro da cidade. (foto acima)

Affonso Alles, 87, professor aposentado da UFSC, faleceu em janeiro deste ano. Presente e atento a tudo, um cidadão pleno que ia da luta pelos direitos humanos até a criação do Parque da Galheta em 2002.  Lembrado pelos amigos de infância por uma inteligência incomum, Affonso do primário até à universidade sempre foi o melhor aluno da turma. Doutor em Química pela Universidade de Michigan nos EUA,  onde também lecionou, guardava com discrição seus feitos acadêmicos. 

Não sou a pessoa certa para me alongar sobre o Affonso, mas gosto de registrar no blog pessoas que tem história para contar. Affonso se enquadra nesse critério. Fique em paz e onde estiver cuide da nossa cidade: dos seus parques, praias, dunas, lagoas e mangues. A cada dia que passa, mais precisamos da tua inteligência, persistência e determinação.  Enquanto um Alles se vai ficamos com um Salles. Pobre Brasil.

 

quarta-feira, abril 21, 2021

Sua Excelência, don José

A pandemia virou o assunto do dia. Em todos os lugares só se fala nisso. Na última sexta-feira, três amigos devidamente vacinados se encontraram para conversar: um médico famoso, um advogado que presidiu a OAB/SC e um blogueiro sonhador. A conversa acabou girando em torno dela. Em 2019, nos encontrávamos para falar da vida como ela é. Em 2020 com a chegada do vírus, acabou o nosso sossego. O número de óbitos se tornou algo impensável, trazendo a dor e banalizando a morte.  

Naquela mesma semana, duas pessoas próximas que respiravam arte e cultura, vieram a falecer. Automaticamente, a pergunta que se ouvia "de covid"? Não foi o caso, mas mostra como o vírus está presente no dia a dia da gente. Independente da causa, a morte igualmente levou seus projetos e sonhos. Inquietos por natureza, viveram intensamente. Meus sentimentos, a Carmen Fossari e a Luís Antônio Martins Mendes, o Totonho.

Logo depois do falecimento do Totonho, recebi uma crônica escrita por ele há mais de 20 anos. O papel amarelado pelo tempo registrava um fato ocorrido com uma pessoa marcante, que a todos encanta. O amigo comum, José Antônio Stallivieri, a quem chamo de excelência ou de don José . 

Segundo Totonho, "Zé Antônio é daquelas pessoas que circula com intimidade entre o seu ganha-pão e seus sonhos". Gourmet de fino gosto é um perfeito anfitrião. Na época trabalhava na Embratel, onde sua lembrança perdura no tempo. 

Com essa rápida introdução, voltemos no tempo. O motivo da crônica foi o jogo amistoso da Seleção Brasileira contra a Dinamarca,  na Ressacada. O espetáculo estava montado, campo do Avaí, julho de 1996, em Florianópolis. No banco da seleção um jovem atacante, com apenas vinte anos, aguardava uma oportunidade, Ronaldo Nazário.

A Embratel era a responsável pela transmissão para todo o Brasil, seus profissionais com a adrenalina nas alturas. No momento derradeiro, com a Ressacada lotada, a bola já no meio do gramado, o locutor de uma rádio do Espírito Santo pede socorro ao pessoal da Embratel,  o comentarista tinha perdido o avião.  

Orlando Celso, que chefiava a equipe, não perdeu tempo: "a Embratel está aqui para ajudar". Na mesma hora providenciou um substituto. A solução encontrada, tinha nome e história para contar: José Antônio. Para o gerente administrativo da Embratel em Santa Catarina, foi um momento inesquecível. Jamais pensou que ia realizar seu sonho de criança, comentar um jogo da seleção. Quando acionado pelo locutor era chamado de "comentarista da pesada", em homenagem ao seu corpanzil. 

Totonho encerra sua crônica lembrando que o menino de Caxias do Sul, se revelou um sucesso. "Com a antecedência de um Nostradamus, previu, entre outras coisas, a substituição do Amaral, o gol do Ronaldinho e o placar final".

Acima descrevo de forma resumida, a vida como ela é: com bons e maus momentos. Só que agora as boas notícias se foram. Quem podia imaginar que o Brasil ia virar no que virou... 

PS Em 2003, eleito deputado federal, don José, já aposentado, se ofereceu para me ajudar como voluntário. Sem qualquer remuneração, se mudou para Brasília. Sempre alegre, cuidava de tudo. No gabinete, o "excelência"  era ele. Bons tempos.  

quinta-feira, fevereiro 25, 2021

"Estamos vivendo uma tragédia com Bolsonaro, mas precisamos resistir" (Raduan Nassar)

 A Folha mal tinha completado 100 anos e já estava nas minhas mãos. Que engraçada essa relação com o jornal, o tempo não para. Na edição do dia 21, Fernanda Torres relembra seu encontro com a Ilustrada. No caderno seguinte a loucura das impressoras 3 D. Viro a página, o professor de história e deputado federal, Marcelo Freixo (PSOL/RJ), alerta para a democracia sitiada. Se não bastasse,  até as obras do Monteiro Lobato estão sendo debatidas na Folha..

Na mesma edição o jornal trás para seus leitores, que:  após alta hospitalar, 1/4 dos pacientes intubados por covid  morre por sequelas (saúde);  longevidade com dignidade é uma questão de direito (cidadania); estudo recente que contou com a participação de cientistas locais e internacionais, mostra os efeitos no meio ambiente da hidroelétrica de Balbina ( Amazônia). (*)

No entanto, foi a entrevista de Raduan Nassar que me fez relembrar a importância de se ter um jornal como a Folha. A chamada para a entrevista, que é da responsabilidade da edição, já mostra a diferença: "Estamos vivendo uma tragédia com Bolsonaro, mas precisamos resistir". Quantos de nós se encontra nessa situação. Segundo as últimas pesquisas bem mais de 50% da população. Quantos jornais ousariam abrir uma entrevista com essa chamada, quase nenhum. Como sei dessa dificuldade da mídia impressa se expor, separei alguns recados de um renomado escritor que não quer mais escrever e nem ler livros. Aos 85 anos Raduan Nassar prefere falar da política, mesmo sem estar filiado a nenhum partido.

- "Me considero de esquerda e fico com a definição de Pepe Mujica": " Ser de esquerda é uma posição filosófica perante a vida, onde a solidariedade prevalece sobre o egoísmo";

- "Talvez a maior lição da pandemia seja reafirmar que precisamos viver, e conviver, de modo comunitário e solidário";

- Raduan , depois de 20 anos de silêncio, em 2016 se manifestou contra o impeachment de Dilma: "Como todas as pessoas comprometidas com o Estado democrático de Direito, senti o dever de denunciar o golpe e a entrega de um projeto de nação que o Brasil esboçava construir";

- Como avalia os dois anos de Bolsonaro? Para Nassar: "Uma tragédia. Economia devastada, miséria crescente, pior gestão mundial da pandemia, não temos vacinas, não temos estratégia para distribuir as  vacinas, não temos seringas".

- Sobre sua decisão de não escrever mais livros: "Não tenho livros prontos para editar, nem anotações,  reflexões e textos na gaveta. Na gaveta, somente boletos à pagar ...."

(*) A usina de Balbina é da década de 80. Um escândalo acobertado pelas autoridades da época. São 3500 km² de área alagada para gerar quase nada de energia. Fica a 150 km de Manaus, no rio Uatumã. Só para dar uma ideia do tamanho do lago, é maior que oito ilhas de Santa Catarina.

(**) Raduan Nassar, 85, é de Pindorama, interior de São Paulo. Cursou Letras e Direito na USP antes de se formar em Filosofia.

PS - No Brasil das fake news,  da descrença e do descaso, encontrar um jornal com uma informação mais apurada nos  ajuda a entender melhor os reais interesses que movem o poder.   

sexta-feira, fevereiro 19, 2021

O ministro Fachin e a Lava Jato (escrito em 12/2)

O ministro Edson Fachin foi nomeado para o STF em 2015, pela então presidente Dilma Rousseff. Para muitos, Fachin era visto  como um comunista chegando no Supremo. Com a morte do ministro Teori Zavascki em 2017, Fachin assume a relatoria dos processos relacionados a Lava Jato.

Com a chegada da Vaza Jato e do impressionante trabalho jornalístico do Intercept Brasil, o que era uma desconfiança - virou o maior escândalo da Justiça brasileira. Quem foi perseguido e condenado, está perto de ter suas sentenças anuladas. Enquanto os que fizeram da Justiça um aparato de poder,  desmoralizados que estão, vão pagar caro pelos seus erros.

Na última semana, dia 10, o ministro Fachin, que avalizou o processo, resolveu falar. Edson Fachin, em entrevista à Folha, declarou que "uma doença infantil do lavajatismo pode estar acabando, não a Lava Jato". 

Uma saída pela tangente do relator,  que encobriu da sociedade os mal feitos praticados. "A doença infantil" que surgiu no transcorrer da Lava Jato, não tem  nada de infantil. E o ministro sabe muito bem o que realmente se passou. (*)

(*) A entrevista não passou de uma conversa longa, cheia de rodeios. O que salvou  foram duas preocupações de Fachin : a forte presença de militares num governo civil e as constantes manifestações nas redes sociais de depreciação do voto. As duas tem a ver com a minha pregação, voto tem consequência. Dias depois veio: a confirmação!

ATUALIZAÇÃO - Na terça-feira, 16, o ministro do STF Alexandre de Moraes decretou a prisão de Daniel Silveira (PSL/RJ). Através de um vídeo provocativo e acintoso, o deputado ataca de forma virulenta o ministro Fachin. O Supremo por unanimidade manteve a prisão. Os desdobramentos que virão são imprevisíveis. Até porque o deputado pode estar a serviço de alguém. Vamos aguardar um pouco mais para ver no que vai dar.  

quarta-feira, fevereiro 03, 2021

Mudanças no blog

A gravidade do quadro nacional, nos impede de ficar calado. É natural que o blog acabe priorizando os temas políticos. Entre as pessoas que acessam o blog, uma parcela importante está associada as questões energéticas, ambientais e de inovação tecnológica. Que aliás, foi a origem do blog. 

Como acompanho com atenção estes diferentes grupos que se formaram ao longo do tempo, resolvi ajustar um pouco o blog a esta realidade. Sem ficar engessado, a ideia é tratar de forma mais equilibrada as temáticas que abordamos. No meio da semana um tema técnico e no final de semana a política e suas consequências. Como primeiro teste, propositalmente, deixei de fora a vergonhosa eleição dos presidentes da Câmara e do Senado.

ENERGIAS RENOVÁVEIS

Para quem não sabe, nossas fontes renováveis são responsáveis por mais de 80% da energia elétrica que o Brasil consome. As hidroelétricas ganharam escala com a chegada da Eletrobras, no início da década de 60. O etanol de cana, cujos resíduos geram energia elétrica, é da década de 70. A energia eólica apareceu com força durante meu mandato na Câmara, quando criamos a Frente Parlamentar em Defesa das Energias Renováveis.

Com a chegada do Instituto IDEAL, em 2007, o foco passou a ser promover a energia solar fotovoltaica no Brasil. Em 2014 é inaugurada a Usina MW Solar na sede da Eletrosul, em Florianópolis. Um marco histórico: a maior instalação solar fotovoltaica da América Latina, num prédio público. (*) 


                                        Usina MW Solar na sede da Eletrosul. Divulgação/UFSC

O Balanço Energético Nacional 2020, publicado em janeiro, confirma como as energias renováveis se consolidaram no país. Ao longo do tempo construímos uma matriz bem diversificada de fontes voltadas para a geração de energia elétrica, que nos permite sonhar com um futuro sustentável. Basta querer. (**)

(*) A Usina Megawatt Solar  contou com a importante parceria do governo da Alemanha, por meio do banco de fomento alemão KfW, que financiou o empreendimento e do apoio da Cooperação Alemã para o Desenvolvimento Sustentável, por meio da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH. A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e o Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas na América Latina (Ideal) também participaram da concepção e viabilização da Usina Megawatt Solar. (Fonte: Eletrosul/Eletrobras).

(**) Hidroelétricas 63,8%; eólicas 9,3%; biomassa e biogás 8,9%; solar fotovoltaica 1,4%.  O que resta, cerca de 15%, é preenchido por usinas térmicas movidas por combustíveis fósseis e nuclear. 


segunda-feira, novembro 23, 2020

No Dia da Consciência Negra, racismo, brutalidade e morte

 Na sexta-feira, 20, Dia da Consciência Negra, o comentário que ia para o blog estava pronto na minha cabeça. A capa da Folha de São Paulo trazia algo inusitado, a foto de duas mulheres catarinenses, negras e eleitas pelo voto popular. A primeira, Antonieta de Barros, assumiu a cadeira na Assembleia Legislativa em 1934. Seu feito fez dela a primeira negra eleita deputada no país. A segunda catarinense, merecidamente destacada, foi Ana Lúcia Martins. A professora eleita em 2020, é a primeira negra na Câmara Municipal de Joinville.

Aos historiadores deixo como sugestão, um olhar mais atento para o racismo em Santa Catarina. Como a sociedade catarinense vem se comportando nesses 90 anos, que separam a eleição de Antonieta de Barros da de Ana Lúcia. O momento atual de acirramento ao racismo, exige  respostas. Ana Lúcia Martins, antes mesmo de ocupar o cargo de vereadora - foi ameaçada de morte. 

 Nesse mesmo dia 20, que era para ser de celebração, em Porto Alegre as cenas de violência contra um negro chocaram o país. O assassinato de João Alberto por dois seguranças do Carrefour, foi brutal. Tudo filmado na frente de testemunhas, como se fosse algo natural bater numa pessoa até matar. 

Se não bastasse as barbares à nos atormentar, as declarações públicas do presidente Bolsonaro e do seu vice Mourão, tentando minimizar o ocorrido, são patéticas. Até parece que combinaram, pois declararam que no Brasil não existe racismo e "isso é uma coisa que querem importar". Bolsonaro deve achar que vem lá dos EUA. Já o seu vice, Mourão, não devia falar o que falou. Como general conhece a história do Brasil e sabe que o racismo sempre existiu. Nada é importado: tudo é "made in Brazil".

PS - No encontro virtual do G-20, Bolsonaro voltou a nos envergonhar. No sábado, em visita ao Amapá, a vaia foi grande. É o que sempre falo, voto tem consequência.

sábado, outubro 03, 2020

Luiza Helena Trajano e Antônio Ermírio de Moraes, duas histórias de vida

 No final da década de 80, num domingo pela manhã, no centro de São Paulo, conheci Antônio Ermírio de Moraes. Um encontro que guardo nas minhas lembranças. Eu, um jovem engenheiro, ele o Empresário do Ano. O que nos aproximou, pasmem, a defesa da Eletrobras como empresa pública. Além da palestra que dividimos, almoçamos juntos e conversamos como velhos conhecidos. O que ficou do encontro, não foi o relato de uma história de vida cheia de realizações, foi seu entusiasmo incomum pelo trabalho voluntário na Beneficência Portuguesa. (*)

Luiza Helena Trajano, do Magazine Luiza, não veio de uma família tradicional de São Paulo como Antônio Ermírio. Nasceu no interior de São Paulo, em 1951. Sua determinação e protagonismo fez dela uma das mulheres mais influentes do Brasil. Não a conheço, mas me impressionou a  decisão que tomou de enfrentar o racismo: uma consequência histórica do nosso atraso como sociedade. (**)

Bem informada, dona Luiza sabia das reações que viriam ao dar oportunidade para os negros na sua rede de lojas. Mesmo assim não hesitou,  deu publicidade a sua iniciativa contra o preconceito racial através de um manifesto público:   

"Todos sabemos sobre o passado ancestral da população negra no Brasil, a escravidão por décadas foi uma história que deixou reflexos sociais que excluem pessoas negras. Precisamos caminhar juntos nesse processo histórico que só pode ser reparado quando entendemos o impacto do que é estrutural e hoje queremos derrubar essa barreira através da oportunidade repaginando essa história".  ( FSP, 25, Ilustrada, Renato Terra)

Antônio Ermírio e Luiza Helena, empresários de duas gerações separadas no tempo, chegaram ao topo por diferentes caminhos. O legado de Antônio e a trajetória de Luiza tem em comum uma visão de mundo diferenciada.  Um belo exemplo de pessoas que tem história para contar, graças a forte sensibilidade social presente ao longo de suas exitosas carreiras..    

(*) Antônio Ermírio (1928/2014), na época defendia a Eletrobras pública como poucos. Sabia da importância da energia elétrica para o desenvolvimento do país. Seu grupo empresarial se destacava por gerar sua própria energia. Para ele, a privatização da Eletrobras não passava de um engodo. Depois de quarenta anos; Bolsonaro e Guedes insistem na venda do seus ativos.

(**) Luiza Helena, surpreendeu a sociedade com sua iniciativa. Ao expor a vontade de reparar as mazelas da escravidão, trazendo as consequências sociais do racismo para os dias atuais, derruba barreiras e abre oportunidades para os afrodescendentes. Seu exemplo de mulher e líder empresarial,  já corre o mundo como uma visionária bem brasileira. 

PS - Cada vez mais as pessoas pensam só em si. No mundo dos negócios a esperteza tomou conta da gestão. Por isso a importância do registro acima.  

segunda-feira, setembro 14, 2020

Voto tem consequência, o Rio de Janeiro que o diga

Quem acompanha o que escrevo no blog e no Linkedln, já deve ter percebido que gosto de usar a expressão "voto tem consequência". De tempos em tempos alguns mais precipitados, acabam se descontrolando por entenderem que é uma cobrança em relação ao voto que deram em 2018. Embora entenda a reação, não se trata disso. A preocupação maior que tenho é com o eleitor, já que na minha visão, o eleito é consequência. A reflexão é cada vez mais necessária; tanto para as eleições daqui como em qualquer outro lugar.

No Brasil, o Rio de Janeiro é o melhor exemplo que se tem. O eleitor de lá é um caso a ser estudado. Dos últimos cinco governadores eleitos, todos estão presos ou prestes a ser. É óbvio que na hora de votar, o carioca não pensou nas consequências. Quem aborda o tema com muita humor é um carioca, o reconhecido escritor Gregorio Duvivier. Segue um pequeno trecho do impagável artigo "Malandros e otários", publicado dia 9 na Folha: 

"Precisamos lidar com a terrível realidade. Por trás da fama autogerada de malandragem, o carioca é o otário do Brasil. Soa duro, eu sei. Mas enquanto nativo da Guanabara, posso garantir: não há ninguém mais ingênuo no país - quiça no planeta". 

 Se quisermos olhar na nossa volta, a votação do comandante Moisés aqui em Santa Catarina também carece de uma explicação. Um desconhecido, que se elegeu governador com mais de 70% dos votos. Comandante do Corpo de Bombeiros em Tubarão, virou governador de uma hora para outra. Sem respaldo político e popular, os processos de impeachment não param de chegar na Casa Legislativa. Seu futuro é incerto. (*)

Outra situação vergonhosa é a dos nossos deputados federais, eleitos com o voto dos catarinenses. Sempre tão falantes, agora estão calados. Segundo se sabe, quase todos votaram pelo perdão das dívidas das igrejas que não param de proliferar. O dinheiro é público e a conta passa de 1 bilhão de reais. Não acredito que os eleitores de Santa Catarina, estejam de acordo com tamanha benevolência.(**)

Por isso insisto, caro eleitor: voto tem consequência.

(*) Em plena pandemia o governo do Estado pagou adiantado 40 milhões de reais, por respiradores que nunca foram entregues.  Em Itajaí, o hospital de campanha foi abortado. Segundo apurado na época, o orçamento estava super faturado. 

(**) Caso algum deputado federal queira se manifestar em relação ao voto que deu, tanto o blog como minhas redes de comunicação estão disponível.

domingo, maio 31, 2020

Uma notícia da Reuters para o meu pai

Se o meu pai fosse vivo, em dezembro faria 112 anos. Em época de quarentena estaria em casa, caminhando no longo corredor de nossa morada em Rio Grande. Essa caminhada depois da janta, fazia parte da sua rotina. Sempre calado, concentrado nos seus pensamentos, ia e voltava por um bom tempo. Um homem exemplar em todos os sentidos. 

Nesta semana, seu Hypolitho me veio a lembrança. Tudo por causa de uma notícia da Reuters (*), sobre as declarações de uma assessora de Paulo Guedes. Embora do interior, lá no fim do Rio Grande do Sul, numa época de difícil comunicação, meu pai era bem informado. Gostava de me levar nos comícios, lia o que podia e tinha um grupo fiel de amigos para conversar. No final da tarde se reuniam no café Dalila, para debater os assuntos do dia. Na época conhecia todos eles pelo nome.

Quando era uma notícia mais qualificada, a fonte era a Reuters. Se era da Reuters, meu pai acreditava. Nunca tive a oportunidade de lhe levar uma notícia dessa agência de informação que ele tanta presava. Agora, de quarentena, chegou o  momento. Não sei se vai chegar até ele a informação, mas vou tentar.

Pai, saiu na Reuters que "Generais de Bolsonaro estão perdendo a batalha". A reportagem é de Stephen Eisenhammer e Gabriel Satrgardter. A matéria destaca a crueldade do comentário de Solange Vieira, da equipe de Guedes. Paulo Guedes, para lhe situar, é o ministro da Economia. Durante a campanha era o Posto Ipiranga, sabia tudo. Em 2019, durante sua gestão e antes da pandemia, crescemos 1%. Em 2020, o governo já sinalizou que o PIB deve cair 6%  em relação ao ano passado. O pior resultado econômico da nossa história. Uma tragédia. (**)

Quanto a Solange Vieira, segue sua absurda declaração na Reuters:"É bom que as mortes se concentrem entre os idosos. Isso melhorará nosso desempenho econômico, pois reduzirá nosso déficit previdenciário". (***)


(*) A inglesa Reuters, é considerada a mais importante agência de notícias do mundo. Com sede em Londres, foi fundada em 1851.

(**) A Ipiranga foi fundada em 1937. Por um bom tempo, suas atividades estavam concentradas na cidade de Rio Grande. 

(***) Solange Vieira, é chefe da Superintendência de Seguros Privados - SUSEP

PS - Por coincidência,  meu pai trabalhou a vida inteira com seguros. Numa época que o relacionamento com o segurado era pessoal. Fico imaginando o seu desconforto com as declarações da Superintendente da SUSEP. 


segunda-feira, março 16, 2020

Pra que serve um presidente



Você já deve ter se perguntado: pra que serve um presidente? O cargo em si é de uma complexidade desafiadora, mas a resposta à indagação que ora faço é muito simples: melhorar a vida das pessoas. Quem conseguir entender isso e tomar iniciativas nesse sentido, pode ter certeza que será reconhecido como um bom presidente. 

Para tanto é preciso ter foco, saber priorizar as demandas e por em prática as iniciativas do governo acolhidas pelo Poder Legislativo. Para dar certo, a harmonia entre os poderes é essencial. Sem entender isso, ou desprezar essa condição, o resultado é o fracasso.

Dentro de um regime democrático é assim que funciona. Quando o acirramento entre os poderes parte do Executivo, tudo fica mais difícil. A democracia está sob ameaça, já que a vontade do governante eleito é outra...

No domingo, 15, algo até então impensável ocorreu. O presidente desprezou as orientações do próprio governo em relação ao coronavírus e se juntou a nau dos insensatos. O pequeno grupo de seguidores inconsequentes, que resolveu hostilizar os Poderes Legislativo e Judiciário. Diante da epidemia que a todos preocupa, nenhum Chefe de Estado agiu de forma tão irresponsável.

Com esse breve comentário, espero ter contribuído para a reflexão sobre o que é um bom presidente.  Num país tão desigual como o nosso, melhorar a vida das pessoas se faz com muito pouco. Basta respeitar as instituições; criar emprego digno; oferecer saúde e educação de qualidade. Simples assim.


terça-feira, março 10, 2020

DIA 8, Dia Internacional da Mulher


O Dia Internacional da Mulher tem, antes de tudo, um significado histórico. Representa a luta das mulheres pelo mundo afora por seus direitos. Criado há mais de um século para lembrar o assassinato da militante Rosa de Luxemburgo, o dia 8 se tornou o movimento que mais cresce no mundo (*). A foto acima, não é uma montagem. Domingo passado milhões de pessoas ocuparam as ruas de Santiago, no Chile. A população do Chile é muito menor do que a nossa (menos de 20 milhões); o que torna ainda mais impressionante a manifestação. O Chile, como o Brasil, acabou de sair de uma eleição. Num processo eleitoral bem menos radicalizado,  a direita chilena ganhou a eleição com Sebastián Piñera.

Não me considero um conhecedor do Chile, mas já prestei alguns trabalhos por lá. A dimensão das manifestações me surpreendem. Sob o ponto de vista econômico o Chile é um oásis entre os latinos. A renda per capta é a maior da América Latina, só que agora se viu que as desigualdades sociais incomodam demais os chilenos. Entre todas as questões mal resolvidas, a privatização da previdência, implantada no período da ditadura, foi a que mais impactou. E essa maldade com os mais velhos o tempo não apaga, só agrava. 

Com essa breve introdução, tento encontrar uma explicação para o que está em curso no Chile. Ao meu ver, uma insatisfação coletiva em grande escala acumulada ao longo dos anos. São quatro meses de manifestações contra o governo de Sebastián Piñera. O Dia das Mulheres foi uma manifestação a mais. Diferentemente das outras, um grande ato lúdico. Não é por acaso que democracia é uma palavra feminina. As mulheres nos superam em tudo, até na forma de protestar.

(*) Rosa de Luxemburgo foi uma filosofa e economista polaco-alemã. Ativa militante de esquerda, foi brutalmente assassinada por defender direitos e igualdades das mulheres. (1871/1919)

PS - Em Porto Alegre, onde estava para tratar da organização do evento SUSTENTAR 2020, dia 07 de maio, na Assembleia Legislativa, as manifestações do DIA INTERNACIONAL DA MULHER se deram na orla do Guaíba e na Esquina Democrática. 



 

domingo, janeiro 19, 2020

Adoção de idosos, "me engana que eu gosto".

O ano mal começou e o sinal vermelho já acendeu. O Estado, através do secretário nacional de Direitos da Pessoa Idosa, Antônio Costa, está propondo um programa de adoção de idosos. Mais uma iniciativa "me engana que eu gosto".

Que os idosos precisam de atenção, todos sabem. Infelizmente, a desatenção só cresce. A sociedade se modificou e as famílias, com as raras exceções de sempre, não estão nem aí para os seus idosos. Com as aposentadorias minguando e o acesso dificultado, o  que vem por aí é o pior dos mundos.  Quem viver verá. (*)

As palavras podem parecer duras, mas retratam a situação que vivenciamos. Lamento dizer que no futuro a vida dos idosos será ainda mais difícil. Basta observar as ruas e a visível ausência de políticas públicas para resolver esse grave problema social. Queria muito estar errado. Sempre olhei para os idosos de forma respeitosa. Só que a realidade é outra.(**)

Quem precisa do INSS sabe o que estou falando. As filas estão aí para confirmar. São milhões que ganham 1 SM, sem falar nos que estão fora do sistema perambulando pelas ruas, sem ter um abrigo, um prato de sopa, o afago de um filho. No futuro teremos um numeroso exército de pessoas idosas, no aguardo de uma política pública que diminua a miséria e lhes traga esperança. (***)

(*) As novas regras previdenciárias, agravam ainda mais a situação de penúria dos aposentados. Não terão as condições necessárias para uma velhice digna. Nem seus algozes estarão aqui para ouvir suas reclamações.

(**) O projeto proposto pelo governo das pessoas adotarem idosos, é o próprio "me engana que eu gosto". A obrigação primeira é da família, depois vem o Estado. "Terceirizar" a responsabilidade no acolhimento ao idoso, não precisa ser da área para saber que não vai funcionar.

(***) Quantos idosos seremos no futuro? Alguém já se perguntou? Alguns milhões. E desses alguns milhões, a grande maioria na miséria. A única possibilidade que vislumbro, é o Estado se comprometer em combater a desigualdade social que temos e propor politicas públicas que contemplem o bem estar dos idosos. A China entendeu que para crescer, o primeiro passo é  combater a miséria. (leia no blog 13/01, A reviravolta chinesa)

segunda-feira, outubro 07, 2019

Um dia muito esperado

Dia 5 de outubro, em Austin, no Texas, nasceu minha neta. Um dia muito esperado, até porque quis a vida que eu fosse um vô já bem rodado. Nunca entendi direito porque outros avós falavam maravilhas de se ser avô. A resposta só veio quando aquele bebezinho, com poucas horas de vida, me olhou. Dizem que recém nascidos não enxergam. Pode até ser coisa de avô de primeira viagem, mas  a impressão que tive foi de que ela me viu.

Durante a noite pensei bastante sobre isso. Sobre uma vida que chega e que já te faz pensar no teu passado, no presente e no futuro dela. O passado é sobre o legado que vais deixar. O presente é o convívio que vais ter. E quanto ao futuro, deixa de ser metido, só cabe a ela traçar. Que loucura, de um dia para o outro, muita coisa nova aconteceu comigo. Nada como ser avô.

O passado é o resgate das histórias que vivenciasse. Que teve como foco uma ativa participação pública, marcada pela ética e pelo interesse da sociedade. Tudo começou na década de 80, na Eletrosul, onde trabalhava. Foram anos de uma luta sem trégua contra a corrupção que havia, até todos seus diretores serem afastados pelos malfeitos que fizeram. Depois vieram dois mandatos de vereador em Florianópolis. O legado deixado também foi fruto de muito enfrentamento. Aprovamos a criação de praças e parques em terrenos de grande interesse da especulação imobiliária, humanizando a cidade e valorizando o espaço público. Como resultado desse novo olhar para a cidade, chegamos a Câmara Federal graças a uma votação expressiva dos eleitores da capital.

Na Câmara, o mandato também foi diferenciado. O nosso envolvimento foi com temas mais globais: mudanças climáticas, energia renovável, meio ambiente e inovação tecnológica. Teu avô ficou falando sozinho. Só agora, quinze anos depois, esses temas passaram a ter a importância - que sempre deveriam ter tido. O desencanto, não me abateu. Em 2007 criamos o Instituto IDEAL, uma instituição privada sem fins lucrativos, com o objetivo de dar a visibilidade a essas questões. Doze anos depois,  muitas coisas aconteceram. Atualmente, a energia solar é o setor que mais cresce no Brasil.

Portanto, minha querida e aguardada neta, depois dessa breve retrospectiva de minha vida, finalmente nos encontramos. O meu futuro é curto, o teu ainda nem começou. Por isso é que precisava registrar o que foi para mim a magia do teu olhar, nas primeiras horas da tua vida. Naquele momento conheci a prazerosa sensação de ser avô. O teu mundo será outro, as mudanças estão em curso e serão cada vez mais rápidas. O papel das mulheres será cada vez mais relevante. E a importância do conhecimento também. Sei que estás em boas mãos, teus pais saberão te orientar e apoiar tuas escolhas. Seja feliz. Sucesso na caminhada.