sábado, abril 11, 2026

Bariloche, 50 anos depois...

 

 

Normalmente a vida corrida não nos deixa pensar e o cérebro da gente, não é um “data center”. Às vezes está sobrecarregado e pifa, quando se percebe é tarde demais. Por isso foi uma ótima ideia voltar a Bariloche para relembrar nossas Bodas de Ouro. Em poucos dias podemos perceber quanta coisa mudou em 50 anos. A necessidade de se registrar essa passagem foi imediata. Já na chegada se pode ver que o antigo aeroporto de pedra Teniente Luis Candelaria, inaugurado em 1953 ainda está lá. Só que agora reformado atende com segurança e conforto  os milhares de turistas que chegam todos os dias na cidade.  (*)

Como gosto de contar histórias, no dia que chegamos em Bariloche, em março de 1976, a pequena cidade estava tomada pelo Exército. A presidenta destituída pelo golpe militar, Isabelita Perón, tinha sido levada pra lá. Um lugar distante das manifestações em Buenos Aires e de difícil acesso. Para os turistas que estavam lá um sufoco. Sem qualquer informação, não havia cambio, não circulava dinheiro e os bancos fechados. A nossa sorte foi a família do pequeno e aconchegante hotel Edelweiss garantir nossa estada. O hotel continua lá, com o mesmo nome, só que agora é imenso e pertence a uma rede internacional.  

Ao longo desses 50 anos, Bariloche deu um salto. Com mais de 100 mil habitantes a cidade vive do turismo. Com cerca de 500 hotéis oficialmente registrados, Bariloche conta com duas grandes temporadas, a de verão para as trilhas e os lagos e a de inverno, para curtir a neve e as estações de esqui. O atendimento aos que chegam é diferenciado, eles sabem que estão longe de qualquer lugar. Quem vem visita-los é muito bem recebido. Nada é por acaso, dá vontade de ficar ou de voltar. Sem falar que a imensidão e a beleza da Patagônia te impressionam a ponto de querer te prender.

O sentimento que vem nas caminhadas e passeios é de puro fascínio. Diante de nós uma natureza na sua forma mais primitiva, onde não se percebe a mão do homem. O encantamento vem também pelas histórias que contam. Afinal, o Parque Nacional Nahuel Huapi é o primeiro Parque Nacional da América Latina.  Se mantem imponente com sua infinidade de lagos que recebem as límpidas águas do degelo dos Andes. O Parque Nacional Nahuel Huapi, na Patagônia Argentina, com mais de 700 mil hectares, criado em 1903, preservado por Lei, é o terceiro mais antigo do mundo.  O Brasil, por exemplo, só veio a ter um Parque Nacional na década de trinta, em Itatiaia.

Por trás de tudo isso uma linda história de entrega e de amor de um argentino com a natureza selvagem de seu país. Seu nome Francisco Josué Pascasio Moreno, mais conhecido pelo eu apelido – “Perito Moreno”. O Parque Nacional Nahuel Huapi só existe e faz parte da Argentina por causa de sua determinação. No passado os governantes argentinos nunca se envolveram com a Patagônia. A mais de 1000 km de Buenos Aires, sem estrada, nada no caminho, era uma terra inóspita. Como consequência desse abandono, os chilenos se achavam os donos do lugar. Através da brilhante defesa de Perito Moreno nos Tribunais Internacionais da época, a Argentina teve o seu direito estabelecido por Tratado em 1881.

Doutor Francisco era um pouco de tudo, explorador, antropólogo, paleontólogo, geólogo, educador, historiador e legislador. Foi ele que durante décadas negociou com os chilenos os limites legais da Argentina na Patagônia. Inicialmente, sem qualquer informação e apoio, doutor Francisco foi para aquela imensa área como um perito fazer os primeiros mapas e desenhos. Como reconhecimento pelo imenso legado deixado, Perito Moreno é uma lenda: considerado como o argentino que mais fez pela Argentina. (31/5/1852 a 22/11/1919)

(*) Sobre o Aeroporto Internacional Teniente Luis Candelaria, duas curiosidades. O nome é uma homenagem ao primeiro piloto a cruzar a Cordilheira dos Andes. Já o primeiro engenheiro responsável pela obra do Aeroporto, o também argentino Oscar Stein, veio para o Brasil onde participou na construção de grandes hidroelétricas na região sul do país. Seu Oscar, como era conhecido, se aposentou na Eletrosul. Morou em Floripa com sua familia e deixou muitos amigos. 

quinta-feira, março 19, 2026

FLORIPA, 353 anos...

 

Florianópolis, quando eu te vi me apaixonei. O amor se deu num piscar de olhos, aqui é o meu lugar. Muito jovem, recém formado, era verão de 1973. Sem lenço nem documento vim para a UFSC e morava numa república de estudante na Agronômica. Bons tempos, a cidade era outra. Talvez Floripa tenha sido a cidade que mais tenha mudado em tão pouco tempo. De uma Ilha sossegada a uma capital frenética que cresceu de forma desordenada. Por razões que não cabe relatar, quis o destino que por 10 anos (1996/2006), exercesse mandato como vereador e deputado federal. Por isso, penso que tenho legitimidade e conhecimento para falar sobre ilha uns dias antes do seu aniversário, 23 de março.

O motivo do artigo veio de demandas que recebi nessa semana sobre a obra da SC-401, por estar completamente fora da realidade. Uma obra viária estruturante dentro de uma capital precisa ter um olhar para o futuro. A intervenção que estão fazendo é um remendo. A SC-401 essencialmente tem que incorporar uma faixa exclusiva para ônibus, uma ciclovia segura e um acostamento decente. Qualquer projeto sem contemplar essas três necessidades é uma obra que já nasceu atrasada no tempo.

Quando era vereador em 1996, se começava a discutir a duplicação da SC-401. Um projeto bem completo que pensava em tudo que uma obra dessa envergadura tem que oferecer. A SC-401 é a rodovia estadual mais movimentada de Santa Catarina, ela cruza a Capital impactando a vida de milhões de pessoas por ano. Para qualquer cidadão atento é inconcebível que passados trinta anos está se gastando para implantar um remendo em cima de um projeto muito pior do que aquele se tinha naquela época. Senhor governador Jorginho, senhor prefeito Topázio, ainda dá tempo para corrigir. 

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

DE OLHO NO FUTURO, três mil postagens

Quando deixei a política partidária em 2007, automaticamente fui atrás de algo que permitisse, com a experiência acumulada em dez anos de mandato, contribuir para o bem comum. Dessa forma duas décadas atrás com alguns amigos criamos O Instituto para o Desenvolvimento das Energias Alternativas da América Latina - IDEAL e tempos depois o blog "De Olho no Futuro". O primeiro sem fins lucrativos virou na prática um trabalho voluntário que ao longo do tempo nos fez chegar através de um concurso de pesquisa e desenvolvimento em fontes renováveis a quatorze países da América Latina. Lá se foram  dezessete anos (2007/2024).

Quanto ao blog de Olho no Futuro nasceu da inquietação que só a boa prática política nos dá. Distante do Congresso, mas perto das pessoas a vontade de opinar te faz criar o caminho. Quando sentei para escrever "A tragédia anunciada em Juiz de Fora", minha filha até por ser jornalista observou que essa era a postagem três mil e o valor inestimável de um tempo tão longo de comunicação entre quem escreve e quem te segue. Na mesma hora gravei um vídeo sobre Juiz de Fora e me sentei para pensar com os dedos sobre esse momento tão relevante de minha vida. Grato pela observação, Andréia.

O que me fez escrever tanto, foi a primeira reação que tive. Sinceramente, não tinha ideia do quanto havia escrito. Sem tempo de olhar para o acervo do blog, só posso atribuir o volume produzido a uma vontade incontrolável de registrar passagens de natureza distintas que de certa forma motivaram a escrever sobre elas. Agora quero ver se me encontro com esse passado, só não sei quando. Afinal, o futuro é que me move. Até breve. (26/02/2026)    

quarta-feira, janeiro 14, 2026

Acordo Mercosul/União Europeia, nada é por acaso

 


Depois de três décadas e muitas incertezas quis o destino, que o Mercosul e a União Europeia se aproximassem e firmassem um acordo comercial histórico. Afinal, a União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Mercosul, movimentando mais de 100 bilhões de dólares/ano em negócios entre os respectivos blocos. Além disso, envolve cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB superior a US$ 22 trilhões. Sem falar no fato mais relevante, na semana que Trump humilhava a Europa e ameaçava a América Latina.

A resposta dada pela diplomacia e não pela força, veio em boa hora. Os dois blocos que vinham de namoro decidiram firmar uma relação estável por uma série de interesses que envolvem relações comerciais e a geopolítica. Como nada é por acaso, o Acordo saiu porque tinha que sair. As duas partes envolvidas estavam sob ameaça e precisavam criar um foto novo de grande repercussão no mundo. Nasce um novo tempo de semear e colher, frutos de uma relação respeitosa. Que os nossos produtos ganhem em qualidade e em valor agregado.

A integração regional é um caminho longo, desafiador, mas necessário. Em 2003, como deputado federal por Santa Catarina no Parlamento do Mercosul, já tinha clareza que devíamos agregar novos países ao Bloco. Inicialmente trazendo o Chile e a Bolívia nos aproximando dos países Andinos e de um acesso fundamental ao Oceano Pacífico. O Mercosul ampliado é um projeto de Integração Regional.

 Em 2015, na Universidade de Belgrano, em Buenos Aires, com dois colegas uruguaios e uma argentina, nos dedicamos a apresentar e defender como monografia de final de curso, o ainda incipiente debate de uma América sem Carbono. No ano seguinte em Quito, no Equador, na Sede da Organização Latino Americana de Energia, como presidente do Instituto IDEAL, tive a oportunidade de destacar a importância do conhecimento como fator de Integração Regional, numa cerimônia de entrega de premiação de pesquisa na área de energia no nono Concurso ECO-lógicas voltado para as universidades da América Latina. 

Com o atual Acordo vamos construir juntos uma América Latina mais forte, incorporando ciência e tecnologia europeia de décadas, as imensas riquezas naturais do nosso Continente. Uma via de mão dupla com regras previamente estabelecidas, que vão permitir um trânsito de mercadorias lado a lado, quase que sem taxação alguma. Se vai dar certo, só o tempo vai dizer. No momento conturbado que atravessamos, o Acordo é uma luz de esperança. Até

quinta-feira, dezembro 18, 2025

Como será o amanhã...

Um Natal de Conscientização Ambiental (foto: Mauro Passos)

Em 2024, boa parte do Rio Grande do Sul foi atingido pelas fortes chuvas de maio. Uma tragédia ambiental, social e econômica. No ano seguinte, durante a COP30, a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, foi arrasada por um ciclone. Agora em dezembro a região oeste, o litoral catarinense, a Região Metropolitana e a capital Florianópolis, foram atingidas por fortes ventos e chuvas intensas. Logo depois, a mesma força da natureza chegou em São Paulo. Além de ficar às escuras por vários dias, a maior cidade da América Latina mostrou toda a sua fragilidade diante das mudanças climáticas em curso.  

Com essa breve introdução chegamos  no Seminário IMPACTO FUTURO do Instituto IMPAC, no último 27 de novembro. O objetivo do encontro, um balanço da COP30 e seus desafios. No curto prazo o que vamos fazer em 2026 é debater tudo que aconteceu no início de dezembro em Florianópolis e na Região Metropolitana. A pauta não poderia ser outra, afinal o que vivenciamos com as fortes chuvas, a invasão do mar e os ventos intensos na região, pode se repetir a qualquer momento.

A tragédia com destruição e mortes mostrou nossa vulnerabilidade diante de fenômenos climáticos que estão cada vez mais presentes entre nós. O DNA do Instituto IMPAC é a conscientização ambiental. Portanto, debater a necessidade de “preservar agora pra se ter amanhã” se torna urgente. Num primeiro momento identificar e cobrar do poder público o que pode ser feito para nos proteger. No perímetro urbano das cidades, por exemplo, são as obras estruturantes de drenagem, avançar com o saneamento básico e intensificar a recuperação de bocas de lobo. Já no entorno das cidades, precisamos atuar na preservação das nascentes, no replantio de árvores nativas e dar uma atenção especial para a proteção do nosso litoral, seus manguezais e praias.

Nesse processo de construir o “amanhã”, os seminários IMPACTO FUTURO do Instituto IMPAC vão continuar alimentando o bom debate sobre a importância da conscientização ambiental. As demandas são grandes e o tempo é curto. Com certeza vamos construir juntos uma aproximação de políticas públicas e investimentos privados, diante do que vem por aí:  reflorestamento em larga escala, priorizar o saneamento básico, cuidar das nascentes e olhar para o crédito de carbono como um instrumento de reparação ambiental. Um procedimento global  que vem sendo debatido, com foco no quem cuida ganha.

Por fim, já de olho no longo prazo, projetar Floripa e a Região Metropolitana para 2050, sem ser discursivo, com o rigor do conhecimento. O comentário de Carlos Alberto Tavares Ferreira, da Carbon Zero, no último dia 15, sobre o relatório que teve acesso do astronauta Ron Garan, que passou 178 dias no espaço, nos faz pensar no “amanhã”. Segundo ele, o que observou lá de cima é uma tênue camada de proteção que ainda nos permite viver.

Sem essa proteção vista por Ron Garan de uma fina película azul que protege tudo que consideramos civilização, a humanidade corre sérios riscos. Proteger agora significa ter amanhã. Pensem nisso. BOAS FESTAS!

terça-feira, novembro 18, 2025

Só a Educação conscientiza

 


 

Quando criamos o Instituto IMPAC, em 2024, o foco sempre foi a conscientização ambiental. O caminho também se sabia, passa pela educação. Em razão da COP30 no Brasil, logo veio a ideia de um projeto que pudesse levar Santa Catarina até Belém. Com poucos recursos e com pouco tempo disponível, o sonho virou um imenso desafio. Em 50 dias conseguimos realizar algo até então impensável, um projeto piloto exitoso: levar 734 crianças das escolas públicas de Santo Amaro da Imperatriz, a passar Um Dia na Mata.

Um breve balanço dessa experiência prazerosa será apresentado dia 27 de novembro, no Seminário IMPACTO FUTURO, dentro das comemorações dos 50 anos do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro. Através da dedicação voluntária e incansável dos dois biólogos, o professor Fernando Brüggemann e o professor Guilherme Willrich, com o apoio de alguns parceiros, foi possível transformar o que era um sonho em realidade.

De olho nas inúmeras imagens que guardamos, a foto acima da professora Monica Fantin recebendo o livro Tabuleiro, principal obra sobre a fauna e flora local, com mais de 600 páginas, do autor Fernando Brüggemann, é um desses momentos mágicos que só um celular consegue registrar.

Dois ex-alunos da UFSC, renomados professores, encantados por um projeto educacional, que se aproximaram por entender a dimensão de um livro nessa história. Afinal nada é por acaso. O conhecimento do Fernando, documentado no livro Tabuleiro, que serviu de suporte para todas as palestras que os alunos receberam dentro da programação Um Dia na Mata, só foi possível graças a obstinação de um pesquisador e seu legado construído ao longo de 35 anos de uma profunda relação com o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro.

Na foto, Monica Fantin, Professora Titular do Centro de Educação da UFSC, atuando no Programa de Pós Graduação em Educação, recebe o livro Tabuleiro das mãos de Fernando. Uma união da educação na teoria e na prática..