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segunda-feira, dezembro 07, 2020

O que se espera do Brasil....

O último comentário que fiz sobre política, propositalmente, foi antes do resultado das urnas. De quarentena e com a curiosidade aguçada, li e ouvi de tudo. Os resultados ainda não tinham sido assimilados, mas os analistas já estavam focados em 2022. O Brasil é um país único. O voto é obrigatório, mas as abstenções, brancos e nulos: costumam ganhar de qualquer candidato. Como nos três casos o posicionamento do eleitor está associado ao desencanto do cidadão com a política,  pouco se fala sobre isso. (*)  

Com mais de trinta partidos e um presidente eleito sem partido, não há muito que fazer. Sem qualquer preocupação com o já fragilizado quadro partidário, Bolsonaro tenta criar um novo partido. Só que nem isso consegue. Como consequência, viu seus candidatos sucumbiram nas urnas. O caso mais comentado foi o do atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella. O carioca deu o troco no presidente, justamente no seu maior reduto político.

Quando o governo se isola, como agora, o descarte é uma questão de tempo. Para alimentar o bom debate e provocar uma reflexão coletiva tão necessária para responder o que se espera do Brasil,  fui atrás do que os outros estão comentando sobre isso. O país se arrasta e os desafios são muitos, ninguém sabe o que vai acontecer em 2021, mas só se fala em 2022.

ACM Neto, 41, presidente nacional do PFL: "A tal nova política ficou velha muito rápido". Quanto aos pedidos de impeachment na gaveta do Rodrigo Maia, nenhum comentário. Alguém tem que avisar que engavetar é coisa antiga, da época do seu avô.

Mike Lofgen, autor do livro "The Party is Over", afirma que o verdadeiro governo é oculto. E quando o governante de plantão não entende as regras, é descartado por seus próprios pares. Sua mais recente publicação "Por trás da Casa Branca o Estado Profundo", trata disso. Mike conhece como poucos o poder nos EUA, foi assessor dos republicanos no senado por 28 anos. 

Wilson Cid, jornalista - Os partidos estão exaustos, ocupados em interesses imediatos e disputas domésticas. Preferem passar à margem dos problemas urgentes da sociedade.(**)

Sérgio Rodrigues, escritor - Sem amigos nem planos, terminamos 2020 com o mico na mão. O mico em questão é aquele que o dicionário Aurélio define como "situação embaraçosa ou vexatória". 

Vinicius Torres Freire, mestre em administração pública pela Universidade de Harvard - Sabe-se lá o que vai ser em 2021. Bolsonaro, confinado na incompetência, vai ficar refém de um Congresso parado por disputa política e de um governo sem rumo.

(*) A infidelidade partidária cresce a cada ano: 1 entre cada 3 prefeitos eleitos trocou de partido neste ano. Pasmem, dois mil prefeitos eleitos se filiaram em 2020. Sem vida partidária e história para contar  - viraram prefeitos. Depois não dá certo ...   

(**) Em 2021, 275 bilhões de reais do auxílio emergencial vão deixar de circular na economia. A miséria vai se agravar, num momento que o vírus está se alastrando e a economia se arrastando. Até agora, o que se apresenta como prioridade: é a presidência da Câmara e do Senado. Todos de olho em 2022.

PS - Morreu ontem, dia 6, em Montevidéu, Tabaré Vásquez, com 80 anos. Médico oncologista, foi duas vezes presidente do Uruguai. Juntamente com Pepe Mujica foi um dos principais avalistas da recém criada Frente Ampla. Foi o primeiro candidato da Frente a se tornar prefeito de Montevidéu em 1989. Em 2005, se elegeu presidente do Uruguai quebrando a hegemonia de Brancos e Colorados. Uma campanha movida por civilidade e emoção. Como membro do Parlamento do Mercosul, fui indicado pelo Congresso Nacional para ser observador oficial do processo eleitoral no Uruguai. Durante as comemorações que tomaram conta do país, tive o privilégio de conhecer o presidente Tabaré, um vencedor que soube unir os uruguaios. Aliás, foi assim que atual presidente, Lacalle Pou, da oposição, se manifestou: "Tabaré foi o presidente dos uruguaios". 


domingo, novembro 29, 2020

Segundo Turno das Eleições: vencedores e "descartados"

Para comentar o resultado eleitoral do segundo turno, você precisa estar ligado. As informações são muitas e as interpretações podem ser maquiadas conforme os interesses em jogo. O tempo me ensinou que nem sempre o que vai para as urnas é o que está nas ruas.

E por falar nas ruas, antes mesmo das urnas se abrirem, quero comentar o que sinto desse segundo turno. Ao meu ver já dá para perceber que temos vencedores e "descartados". Vencedores são todos aqueles que independente do resultado final, ganharam o apoio de muitos. São candidaturas que enfrentaram a força dos atuais prefeitos, de governadores hostis, do governo Bolsonaro e das artimanhas obscuras do verdadeiro poder.(*)

Nesse grupo identifico:, em Porto Alegre - Manuela d'Ávila, 39, jornalista (PCdoB); São Paulo -  Guilherme Boulos, 38, professor de filosofia (PSOL); Recife - Marília Arraes, 36, advogada (PT); Belém - Edmilson Rodrigues, 63, arquiteto (PSOL). De forma bem objetiva, todos passaram pelas dificuldades dos critérios acima. Pelos votos que vão ter, souberam ampliar de forma significativa seus eleitores. Como se diz na política, furaram "a bolha".   

Por outro lado, seguindo a mesma forma de ver as coisas, o Rio de Janeiro é um caso típico de candidato "descartado". Crivella, para muitos analistas políticos o pior prefeito que o Rio já teve,  foi "descartado" pelos cariocas. Não se pode atribuir a esquerda e muito menos ao Eduardo Paes esse resultado. A sociedade cansou de tanta mediocridade e tratou de se livrar do mico. Simples assim.

(*) Segundo Mike Lofgren, autor do comentado livro "The Party is Over", assessor dos republicanos no Congresso por 28 anos, quem realmente manda no Estado são forças sem alma e sem rosto. 

PS - A expressão "descartado" me ocorreu depois da eleição americana. Representa o pior dos resultados. Trump, por exemplo,  foi "descartado". As urnas refletiram algo maior do que uma derrota eleitoral. Definitivamente, arrogância e  despreparo não combinam com reeleição. 


terça-feira, novembro 17, 2020

Bolsonaro, o grande derrotado



                                       

A foto acima é da praia dos Açores no sul da Ilha, em Florianópolis. Uma das tradições que se mantêm no tempo é a pesca da tarrafa. Nunca pratiquei, mas reconheço que é de uma leveza e beleza única. Até os peixes se encantam ao ver a tarrafa abrir e por isso se deixam aprisionar. Claro que isso é história de pescador. 

Nesse paraíso, Bolsonaro e seu amigo Queiroz ainda não apareceram para praticar pesca proibida e constranger fiscais. Ainda bem! Só imagino ele querendo fazer uma Cancún, começando na praia da Solidão e terminando no Farol dos Naufragados.  Bolsonaro, para alívio de muitos, foi o grande derrotado nas eleições de 2020. (*)


Esquerda unida em Florianópolis

Num país com 5570 municípios, é difícil prever o que sai das urnas.  Antonio Lavareda, 69, um dos principais cientistas políticos ligado ao PSDB, declarou que uma onda de esquerda está se formando para voltar ao poder em 2022. Sua percepção, imagino, é mais da rua que das urnas. As pessoas estão mais empobrecidas e sem grandes perspectivas.  

Como consequência da eleição do último domingo, uma certeza ficou: o grande derrotado foi Bolsonaro. Onde se meteu, deu errado. Sem saber o que falar, nas vésperas de uma eleição,  ameaçou os EUA com o uso da pólvora e chamou os brasileiros de maricas. Patético, para não usar outra expressão.

Suas dificuldades vão além das bravatas. Os militares já explicitam seu desconforto e o desgaste já chegou na caserna. Outra preocupação que atormenta Bolsonaro, segue sendo Queiroz, seus filhos  e as milícias. As apurações estão em curso e o cerco está se fechando.  

(*) Embora a eleição tenha sido municipal, é visível o desgaste de Bolsonaro. Em Florianópolis, o candidato que mais se identificou com ele teve menos que 3% dos votos. No Rio, base eleitoral da família, o ZERO 2, se elegeu. Só que com 30% menos dos votos obtidos na eleição passada.