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quarta-feira, novembro 22, 2017

Drauzio Varella, coerência e exemplo de vida

Embora não conheça pessoalmente o doutor Drauzio Varella, sempre me passou a impressão "de gente boa". Por outro lado conheci, pelo mandato que tive, os deputados Eduardo Cunha, Leonardo Picciani, Ricardo Barros  e tantos outros que nunca me passaram esse sentimento. A política tem disso, te ajuda a conhecer as pessoas pelo olhar.

Na semana que o governo Temer anuncia mais um ataque as pessoas carentes, com limitações ao programa de distribuição gratuita de remédios, o doutor Drauzio nos lembrava que há 50 anos atrás, em plena ditadura, assim se manifestava como orador da sua turma da Faculdade de Medicina de São Paulo: "A  ninguém assiste o direito de exigir que nos transformemos em seres amorfos dentro da sociedade, reduzidos unicamente às funções de estudar e calar. Nosso silêncio poderá ser cômodo às classes dominantes, para a pátria, porém, representaria gravíssima traição".

Cinquenta anos depois, sem estarmos numa ditadura mas num regime de incertezas permanentes, as palavras de Drauzio confirmam o que sempre achei dele: um brasileiro do bem. Viajando no tempo e chegando nos dias de hoje, a coerência de vida é observada com suas atuais preocupações: " Ao contrário da maioria dos universitários de hoje, tínhamos sonhos grandiosos naquele tempo. Queríamos combater a miséria, acabar com esquistossomose, Chagas, varíola, poliomielite, tuberculose e a desnutrição das crianças".

Sobre o SUS, Sistema Único de Saúde, que Drauzio participou ativamente da criação, assim ele se manifesta: " Apesar das desigualdades sociais revoltantes, dos desmandos predatórios de representantes políticos que elegemos e da parte de nossa elite financeira mancomunada com eles, levamos a medicina aos quatro cantos do Brasil, tarefa anteriormente impensável num país de dimensões continentais".

PS - Nesse país sem rumo, onde a maioria vota sem olhar para o passado do candidato, o descrédito é uma consequência. Quem tem história para contar,  na profissão que escolhe ou na opção na politica que faz, tem mais chance de dar certo.

quinta-feira, março 09, 2017

Ainda sobre a reforma da Previdência

A leitura que venho fazendo sobre a reforma da Previdência me fez conhecer o trabalho da professora Sarah Parker, diretora do Instituto do Envelhecimento, da renomada Universidade de Oxford. Seu último livro "How Population Change Will Transform Our World", ainda sem tradução para o português, é uma obra densa e objetiva que expõe causas e efeitos do envelhecimento mundial, comenta Ana Estela de Souza Pinto repórter especial da Folha.

Segunda Ana, a professora Parker vai muito além de olhar só para a velhice. Ensinou políticas públicas na Universidade de Chicago, onde se envolveu com programas em áreas de aposentadoria, planejamento familiar e empregabilidade.

Seu texto fluente e enxuto, se descola da mesmice: "como haverá cada vez mais velhos vivendo cada vez mais - isso fará as aposentadorias entrarem em colapso". Sua preocupação maior é com os jovens. No nosso caso específico,  segundo a ONU: o Brasil envelhece, mas terá metade da população em idade produtiva até 2050. O foco tem que ser emprego para essas pessoas. Sem que elas estejam formalmente empregadas, não há reforma da Previdência que se sustente. A regra é: a aposentadoria dos aposentados é mantida pela contribuição dos trabalhadores que estão na ativa.

A professora Sarah indaga o que está sendo feito para esses jovens em termos de consequências econômicas e políticas públicas sérias. "Quando pobreza, urbanização e desemprego se encontram com uma fatia ampla de jovens entre 15 e 24 anos, os conflitos se acirram". E acrescenta: "nunca houve no mundo tantos jovens nessa faixa etária."  E, conclui: "As questões não estão apenas no passado. Estamos enfrentando no século 21 problemas para os quais instituições do século 20 estão despreparadas".  Bingo!

PS - Aqui no blog sempre que dá procuro confrontar os problemas atuais e futuros com a gestão que se tem. Penso que boa parte da crise que vivenciamos se deve a esse desencontro: "novos problemas x velha gestão". E não é uma questão menor e muito menos simples de ser resolvida. Ninguém quer ver sua zona de conforto ameaçada: se protegem do novo e insistem nas velhas práticas.

quarta-feira, março 08, 2017

A reforma da Previdência e as mulheres

O assunto reforma da Previdência nunca irá se encerrar. E dificilmente vai se chegar a um consenso: é inerente a dinâmica do próprio processo. Talvez seja esse o mais instigante e preocupante tema que envolve politicas públicas, bem estar social e cidadania. As distorções foram se acumulando ao longo dos anos e um dos desafios é corrigir parte dos absurdos criados. Pelo menos os mais vergonhosos.

Do pouco que sei sobre previdência, parte se deve a participação que tive como vereador no Plano de Previdência da Prefeitura de Florianópolis. E bem depois, como deputado federal, quando da reforma encaminhada no primeiro ano do governo Lula. Embora considere toda a experiência válida, nesses dois casos em particular pouco ficou: sobrou desencanto e frustação. 

A falta de informação e conhecimento atuarial de quem participa nessas comissões - é um agravante.  A impressão que dá é que são atores representando um papel. E um papel secundário, próprio de quem está com sua vida resolvida e não está nem aí para os milhões de aposentados que recebem o piso (um salário mínimo) como sua única fonte de renda. Quando se tem essa percepção crua da realidade, cai a ficha: é tudo uma encenação. Sem qualquer ranço politico ou visão catastrófica em relação ao futuro alguém acredita que os nossos governantes querem de fato uma reforma da Previdência Social sustentável, com uma gestão transparente e comprometida com o fim das distorções?


PS- Por falar em reforma da Previdência, novamente as mais prejudicadas serão as mulheres. Alguém sabe de alguma mulher que tenha contribuído de forma continuada por mais de 49 anos para obter a sua aposentadoria? Se para os homens a contribuição continuada por tanto tempo já é um desafio, imaginem para a mulher que além de trabalhar cuida da casa e dos filhos. E por falar nelas, hoje, dia 8, as mulheres no mundo todo vão estar mobilizadas em defesa de seus direitos. Buscam dar um "basta"  a violência cotidiana que sofrem: no trabalho e em casa. Estima-se que uma em cada três mulheres no mundo sofre de violência doméstica. Programa-se: em Florianópolis a Marcha das Mulheres sai do TICEN, às 19 hs.