No final da década de 80, num domingo pela manhã, no centro de São Paulo, conheci Antônio Ermírio de Moraes. Um encontro que guardo nas minhas lembranças. Eu, um jovem engenheiro, ele o Empresário do Ano. O que nos aproximou, pasmem, a defesa da Eletrobras como empresa pública. Além da palestra que dividimos, almoçamos juntos e conversamos como velhos conhecidos. O que ficou do encontro, não foi o relato de uma história de vida cheia de realizações, foi seu entusiasmo incomum pelo trabalho voluntário na Beneficência Portuguesa. (*)
Luiza Helena Trajano, do Magazine Luiza, não veio de uma família tradicional de São Paulo como Antônio Ermírio. Nasceu no interior de São Paulo, em 1951. Sua determinação e protagonismo fez dela uma das mulheres mais influentes do Brasil. Não a conheço, mas me impressionou a decisão que tomou de enfrentar o racismo: uma consequência histórica do nosso atraso como sociedade. (**)
Bem informada, dona Luiza sabia das reações que viriam ao dar oportunidade para os negros na sua rede de lojas. Mesmo assim não hesitou, deu publicidade a sua iniciativa contra o preconceito racial através de um manifesto público:
"Todos sabemos sobre o passado ancestral da população negra no Brasil, a escravidão por décadas foi uma história que deixou reflexos sociais que excluem pessoas negras. Precisamos caminhar juntos nesse processo histórico que só pode ser reparado quando entendemos o impacto do que é estrutural e hoje queremos derrubar essa barreira através da oportunidade repaginando essa história". ( FSP, 25, Ilustrada, Renato Terra)
Antônio Ermírio e Luiza Helena, empresários de duas gerações separadas no tempo, chegaram ao topo por diferentes caminhos. O legado de Antônio e a trajetória de Luiza tem em comum uma visão de mundo diferenciada. Um belo exemplo de pessoas que tem história para contar, graças a forte sensibilidade social presente ao longo de suas exitosas carreiras..
(*) Antônio Ermírio (1928/2014), na época defendia a Eletrobras pública como poucos. Sabia da importância da energia elétrica para o desenvolvimento do país. Seu grupo empresarial se destacava por gerar sua própria energia. Para ele, a privatização da Eletrobras não passava de um engodo. Depois de quarenta anos; Bolsonaro e Guedes insistem na venda do seus ativos.
(**) Luiza Helena, surpreendeu a sociedade com sua iniciativa. Ao expor a vontade de reparar as mazelas da escravidão, trazendo as consequências sociais do racismo para os dias atuais, derruba barreiras e abre oportunidades para os afrodescendentes. Seu exemplo de mulher e líder empresarial, já corre o mundo como uma visionária bem brasileira.
PS - Cada vez mais as pessoas pensam só em si. No mundo dos negócios a esperteza tomou conta da gestão. Por isso a importância do registro acima.
Um comentário:
Excelente relato. Pena que são quase exceções entre os empresários brasileiros: gananciosos ao extremo, antiquados e politicamente corruptos.
Postar um comentário