Futuro da mobilidade elétrica no Brasil dependerá da dança da chuva ?
Claudia do Nascimento Martins – Monitor Digital – 06/02/2015
Tenho observado em palestras e eventos opiniões acerca da viabilidade dos carros elétricos no Brasil, sendo
algumas delas:
– “O carro elétrico não é a melhor solução para melhorar o meio ambiente no Brasil”;
– “O carro elétrico seria inviável no Brasil, por causa da infraestrutura no setor de energia”;
– “A rede elétrica no país não comportaria a utilização em massa de carros elétricos, pois imagine em um
edifício, se dez ou 20 moradores resolvem usar a tomada ao mesmo tempo para abastecer, isso provocaria
um blecaute na cidade inteira”;
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– “As condições atuais da tecnologia e infra-estrutura não recomendam o uso de carros elétricos ou
híbridos”.
Algumas questões merecem então ser consideradas. O carro elétrico já é uma realidade, seus avanços técnicos são
consideráveis, e os seus benefícios ao meio ambiente e ao desenvolvimento são indiscutíveis. Ocorre que o Brasil
apresenta um abastecimento de energia elétrica pautada em hidrelétricas e termelétricas. O verão de 2014, como
também este de 2015, tem revelado riscos no setor elétrico pois, com a forte estiagem, o nível das represas e
reservatórios alcançou uma preocupante redução. Logo, com o baixo nível dos reservatórios, mais termelétricas são
acionadas crescendo a geração de energia com térmicas a gás natural, carvão, óleo diesel e óleo combustível,
aumentando assim as emissões de gases de efeito estufa.
Pensar em carro elétrico no Brasil requer um grande questionamento para qual caminho queremos ir e explorar.
Países desenvolvidos buscam de forma contundente alternativas, investindo em projetos de energias renováveis.
Consequentemente, os carros elétricos estão sendo inseridos no contexto.
A Rede Elétrica da Espanha (REE), que é a distribuidora de energia do país, revelou que, em 2013, pela primeira
vez, a energia eólica foi a fonte energética que mais contribuiu para a geração de eletricidade. De acordo com o
relatório da REE, as fazendas eólicas da Espanha atingiram 21,1% da demanda total de eletricidade do país, um
pouco mais do que a energia nuclear, que atingiu 21% da demanda, seguida pelo carvão (14,6%), grandes
hidrelétricas (14,4%), solar fotovoltaica (3,1%) e solar térmica (1,8%).
No total, estima-se que os parques eólicos espanhóis tenham gerado 53.926 gigawatts-hora (GWh) de eletricidade,
12% a mais do que em 2012. Em fevereiro de 2013, a produção eólica instantânea da Espanha chegou ao seu
recorde, atingindo a marca de 17.056MW às 15h49. Ao mesmo tempo, o governo espanhol, na busca por
tecnologias verdes, em parceria com o MIT, Afypaida e Denokinn, desenvolveu o Hiriko, um carro elétrico leve e
de pequenas proporções que pretende ser uma solução verde e compacta para o tráfego.
Na Dinamarca, em dezembro de 2013, a energia eólica garantiu cerca de 55% de toda a eletricidade consumida no
país. Segundo o principal operador da Dinamarca, Energinet.dk, foi a primeira vez que um país recebeu mais da
metade de sua energia a partir de fonte eólica em um mês inteiro. No primeiro dia de dezembro daquele ano, a
força dos ventos foi suficiente para prover 100% das necessidades do país, enquanto que na penúltima semana do
mês forneceu 68,5% na média.
O país, que é um dos líderes mundiais em energia eólica, tem planos ambiciosos, tendo como meta receber 50% de
sua eletricidade a partir de energia eólica em uma base anual até 2020. Para 2050, o país quer obter 100% de sua
energia proveniente de fontes renováveis. No que se refere à mobilidade elétrica, a dinamarquesa ECOmove,
dedicada ao desenvolvimento e produção de veículos elétricos, desenvolve o Qbeak, pequeno carro elétrico com
capacidade para até seis pessoas. O Qbeak incorpora uma série de características importantes para um carro urbano,
como tamanho compacto, teto panorâmico, pouco peso, chassis modular e portas elétricas deslizantes.
Preservar os investimentos realizados no Brasil, principalmente aqueles em fontes renováveis como hidráulica, é
considerável, mas estabelecer uma visão evolutiva, agregando valor com tecnologias e aplicações inovadoras à rede
de energia elétrica, torna-se necessária. O Smart Grid – rede inteligente de transmissão e distribuição de energia
com base na comunicação interativa entre todas as partes da cadeia de conversão de energia – pode, neste sentido,
ser um elemento de grande transformação no setor elétrico que permite às concessionárias de energia e aos
consumidores mudarem a forma como disponibilizam e consomem energia, dando ao consumidor um poder de
monitoramento.
Na realidade, o Smart Grid prevê uma futura integração dos carros elétricos com o setor de energia, pois considera
a possibilidade de utilização da energia armazenada nas baterias destes carros que pode ser devolvida à rede nos
horários de maior demanda. Além disso, o fato de os carros elétricos serem utilizados essencialmente durante o dia
pode significar uma grande vantagem, pois o período noturno pode ser utilizado para a recarga de baterias,
incentivando o deslocamento da carga para este horário, fora do período de consumo.
A cidade de Armação dos Búzios, no Rio de Janeiro, adotou o projeto de Smart Grid que, segundo a Ampla,
distribuidora de energia que atende à cidade, pretende ser a primeira cidade inteligente – conectada, automatizada e
sustentável – da América Latina. Com o projeto será permitido a cobrança de tarifas diferenciadas por horário de
consumo, que será viabilizado com o medidor eletrônico que a empresa pretende implantar.
Ações semelhantes já existem na Europa, como outro projeto da Endesa, controladora espanhola da Ampla, que é o
Smartcity, em Málaga, iniciado em 2009. Nos Estados Unidos, existem dois projetos: o Smart Grid City, na cidade
de Boulder, no Colorado, e o Grid Smart, de Columbus, ambos iniciados em 2008. O projeto na cidade de Armação 3/3
de Búzios prevê também a inclusão de carros elétricos na frota da polícia e guarda municipal.
Desta forma, a viabilidade dos carros elétricos, no Brasil principalmente, depende de uma conjunção de fatores que
extrapolam os fatores técnicos como o desenvolvimento das baterias, considerando que avanços tecnológicos em
relação ao próprio carro vêm ocorrendo. Na realidade, são os fatores institucionais que, através de políticas
públicas, podem favorecer a infra-estrutura de rede e de recarga, dando condições para tornar o carro elétrico uma
realidade.
Em Palo Alto, na Califórnia, Estados Unidos, região que se consolida na vanguarda da tecnologia mundial,
sediando empresas como Google, Apple, Facebook e Tesla Motors, pretende-se incluir tomadas especiais para
carros elétricos em todas as casas novas. A norma, que foi aceita em 2013 por unanimidade pelo conselho local,
tem o argumento de que, com apenas U$ 200, cerca de R$ 445, pode-se realizar uma instalação de uma estação de
carregamento suficiente para dois veículos. O custo de instalação em uma residência nova é de cerca de um quarto
do custo de instalação da estação em uma casa já construída. O conselho de Palo Alto tem como objetivo incentivar
a aceitação dos carros elétricos, estudando a instalação de estações energéticas de carregamento rápido como forma
de incentivar a aceitação destes carros na região.
Assim com toda a discussão em relação à capacidade de geração de energia no país, a questão da mobilidade
elétrica se retrai em termos de perspectivas, colocando-a em dúvida diante da possibilidade de racionamento para
reduzir o consumo. Logo, como ter carros elétricos diante de uma possível fragilidade do setor? Assim, questões
como Smart Grid, geração distribuída, principalmente solar, tornam-se pontos de discussões. O Brasil é um dos
lugares mais ensolarados do mundo, porém visivelmente alheio a esta fonte tão rica de energia renovável. Nosso
vizinho Chile teve sua capacidade de energia solar conectada à rede saltando de 6,7 MW em dezembro de 2013
para 102,6 MW em janeiro de 2014 com a entrada parcial em operação da Amanecer Solar, que é a maior usina
fotovoltaica do momento da América Latina. Os investimentos chilenos são fruto da chamada Lei 20/25,
sancionada em 2013, que estabelece o objetivo de alcançar 20% de participação de fontes renováveis na matriz
chilena até 2025.
O futuro da mobilidade elétrica caminha junto com novas fontes renováveis de energia. O desenvolvimento das
cidades, a mudança do padrão de consumo aliada às novas formas de comportamento das sociedades requerem um
novo rumo das políticas públicas focadas em energia e mobilidade. O Brasil é um país privilegiado por seus
recursos naturais, sol abundante e ventos contínuos em seus vários pontos. Entretanto, parece que “tudo depende da
água e se a chuva acontecerá ou não”. Preferimos continuar sendo um país à margem das novas tecnologias e
fazendo a “dança da chuva”.
PS - Claudia do Nascimento Martins é economista, mestre em Economia (UFF), doutoranda em Políticas Públicas,
Estratégias e Desenvolvimento (PPED-IE-UFRJ), é professora da Universidade Veiga de Almeida (UVA).
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