quinta-feira, fevereiro 28, 2019

Afastem-se das armas

Bandidos preferem roubar armas ou celulares? A pergunta é pertinente e serve de base para o meu comentário. Se você pensa como eu, o risco agora é dos bandidos entrarem na sua casa para roubar - as quatro armas que te deram o direito de ter.  E não adianta dizer que você é da turma dos desarmados: vão te torturar. Os bandidos, a partir de agora, estão de olho é no armamento que está disponível na residência e no comércio de milhares de brasileiros incautos. Simples assim.


Como deputado federal votei no Estatuto do Desarmamento (Lei nº10.826/03). No entanto, pouco sei sobre armas. Nunca tive e nem pretendo ter. Em razão disso, o registro que faço tem mais a ver com o sentimento do que com o conhecimento. Feita as devidas ressalvas, segue o que penso:


1- Desde quando armar a população é sinal de segurança?


Mesmo armado você não se sentirá seguro para defender sua propriedade e sua família. Você sabia que esse tipo de assalto com invasão da sua casa ou do seu negócio, quase sempre é praticado por um grupo de assaltantes? Você sabia que pelo fato de estarem agindo em grupo, esses bandidos se tornam mais violentos e preparados para o enfrentamento? Você sabia que em São Paulo, nossa principal e mais policiada cidade, menos de 3% dos roubos ocorrem em residências? Com um armamento em casa (até 4 por pessoa) o número de assaltos deve crescer. Arma é o que bandido mais quer. 


2- Agora esqueçam São Paulo, vamos olhar para as pequenas cidades. 


Obviamente correm o risco de uma nova onda de violência: arrastões relâmpagos com intuito de roubar  armas de seus pacatos habitantes. Já que estão com a cidade controlada, nada melhor que levar as armas também. Até a chegada da polícia muito sangue já correu. Pensem nas inúmeras cidades espalhadas por esse país, sem qualquer proteção. Já pensaram? Esse é o Brasil real. Vide os assaltos nas caixas eletrônicas.


3- Os bandidos não vão deixar de agir porque a população está armada. 


Pelo menos é o que sinto. Há um ditado popular que diz: "quem tá na chuva é para se molhar". Assim se sentem os bandidos quando saem em grupo para  praticar o crime:  para eles a vida não tem valor.  O enfrentamento é diário e já faz parte do  DNA dos assaltantes. Seja no confronto direto com a polícia ou numa disputa sangrenta entre  facções criminosas. Não vão se sentir ameaçados diante de um assustado cidadão, com uma arma tremulando na mão.   


4- Ter arma em casa não vale a pena: afastem-se das armas. 


Combater a arma em casa, deveria se tornar uma campanha nacional. Não só pelas razões acima, como também pelo feminicídio. A sociedade está perplexa diante da violência doméstica contra as mulheres. Imaginem agora se o agressor estiver armado.


5- A indústria da arma é uma das mais antigas e rentáveis do mundo.



Com o novo decreto a indústria do armamento tá rindo sozinha. Seria até ingenuidade achar o contrário. O assunto vai longe e como sempre existem outros interesses em jogo. Quem poderia explicar melhor tudo isso, é o ministro da Justiça Sergio Moro (*). Após receber representantes do setor fora da agenda, se negou a tocar no assunto. Pegou mal. Literalmente, deu um tiro no pé.


(*) Assim se manifestou Moro em 2016, ao liberar os grampos ilegais que envolviam o ex-presidente Lula e a então presidente Dilma Rousseff: "A democracia, em uma sociedade livre, exige que os governados saibam o que fazem os governantes, mesmo quando estes buscam agir protegidos pelas sombras". Então tá.


PS - No final de dezembro o ex-governador do Espírito Santo, Gerson Camata, foi assassinado com um tiro no pescoço. O crime foi praticado por um antigo assessor. A arma estava com a licença vencida. Camata, quando senador, apresentou o projeto de lei 292/99, que deu origem ao Estatuto do Desarmamento. Triste fim para o bom político que foi. Nos deixou justamente em razão do uso indevido de uma arma, sua luta de sempre.

 

- O Carnaval está começando: afastem-se das armas.





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