Sem um projeto para o país, pouco resta a fazer
Quando o novo ministro da Educação associou os cortes nas universidades públicas à aprovação da reforma da previdência, só quem é muito distraído não percebeu o alcance do comentário. Pela manhã, a caminho do Centro de Eventos de Florianópolis, onde ia falar na abertura do 34 CINASE, não pensei duas vezes: tinha que tocar nesse assunto. Afinal, quem olha para o futuro não pode se omitir em relação a um retrocesso tão grande.
O pouco que existe de pesquisa e desenvolvimento no nosso país, com as raras exceções de sempre, vem das universidades públicas. Mesmo assim, com recursos bem limitados. Até nossos vizinhos latinos, em relação ao PIB, investem mais do que nós. Já que o tema do seminário era energia solar, não deixei de lembrar que quinze anos atrás só tínhamos o SOL. E o pouco conhecimento que havia sobre energia fotovoltaica estava na academia.
Apesar dos que querem acabar com tudo, pondo em risco o nosso próprio crescimento, o setor vem resistindo e se desenvolvendo. Atualmente são mais de 3000 empresas atuando nesse segmento. Em menos de uma década, disseminamos conhecimento, formamos mão de obra, criamos mercado e desenvolvemos negócios. Em 2018, o setor fotovoltaico brasileiro superou as expectativas e passou a ser visto com outros olhos.
Diante de possíveis mudanças nas regras estabelecidas pela Aneel, o clima de incerteza em relação ao futuro da energia solar estava presente no evento. E esse clima de insegurança está se tornando uma marca desse governo. Muito se deve aos grupos que se criaram em busca de espaço, sem medir as consequências. Suas manifestações descabidas, próprias de quem não conhece a dimensão e a complexidade da gestão pública de um país como o nosso, se tornam cada vez mais frequentes.
Apesar dessas pessoas estarem prestando um desserviço ao país, pasmem, estão autorizadas e orientadas para continuarem a agir dessa forma. Com o desemprego em alta, a paciência se esgotando, não é armando a população e cortando verbas da educação que vamos voltar a crescer. Sem um projeto devidamente estruturado para o país, pouco resta a fazer.
PS - Nessa semana uma carta produzida em Harvard, com pesadas críticas ao governo Bolsonaro, em poucos dias recebeu milhares de apoiadores. Importantes instituições e pensadores do mundo acadêmico se manifestaram publicamente contra o retrocesso em curso no nosso país. Como o documento veio de Harvard, até o guru de Bolsonaro se calou.
ATUALIZANDO - Domingo é o Dia das Mães. Curta com ela esse dia. Vale a pena. Quando a gente perde a mãe, sempre bate uma saudade. Se o clima não anda bom, não se entregue. Faça o mesmo que Tati Bernardi: "Se agarre em pessoas e ideias boas". Elas nos ajudam a enfrentar os desencantos da vida. (Tati é escritora e roteirista. Autora de: "Depois a louca sou eu")
Nenhum comentário:
Postar um comentário